No rastro d’A União 
27/06/2026

Durante muitas décadas meu bisavô João Mendes manteve a rotina diária da leitura do Jornal A União, sempre ao entardecer, quando ficava sentado à cadeira de balanço na calçada da casa ou, dependente da situação, na boca da noite, após feita sua refeição noturna. Ele esperava o jornal trazido pelo trem até Borborema, que dali seguia para Serraria com um portador já esperava e depois para levar até o sítio Tapuio, a dois quilômetros de distância.

Assim foi durante as cinco primeiras décadas do século vinte, somente deixando de cumprir essa rotina quando chegou aos noventa anos, mas continuava resmungando porque escasseava a vista e o exemplar do jornal não estava às mãos. 

Este jornal centenário, patrimônio dos paraibanos, faz parte de minha caminhada pessoal e profissional. Pessoal porque, como recordei, estava no cardápio da família visto que meu bisavô era o patriarca venerado com admiração e respeito, porque, pelo exemplo dele, aprendendo lições de cidadania e amadurecimento da fé.

Como profissional porque, no ano de 1980, tendo Nathanael Alves assumido a superintendência deste Jornal, fez-me merecedor de integrar a equipe de repórter que formava, onde estavam veteranos jornalistas. Chegavam novos valores que a Universidade fazia brotar para o mercado de trabalho. Entre os novatos, talvez fosse eu o único não saído daquele formo do saber universitário

Sou grato a Nathan, Gonzaga Rodrigues e Agnaldo Almeida por acreditarem no jovem sem instrução acadêmica, ainda carregando o jeito brocoió que Serraria e Arara haviam exportado, com uma vontade danada de penetrar no mundo da Imprensa. Em O Norte, até então, tivera um espaço de aprendizagem que não passava da copiar telegramas das agências de notícias, eventuais reportagens e artigos esporádicos; na A União ganhei a chance de adentrar no maravilhoso mundo da Imprensa, porque estava sendo enviado às ruas para catar notícias. Aprendi que lugar de reportar é na rua. Tomei gosto e décadas depois recordo com efusivo fervor e incontrolável contentamento aqueles momentos. 

Presenciei mudanças na política e no comportamento das pessoas, muitas alterações que este jornal viveu nestas três décadas sempre buscando a melhor forma de levar a notícia ao público. Uma dessas inovações foi justamente implantação do sistema offset de impressão colorida à época utilizada na edição do suplemento agrícola Jornal da Terra, que este repórter fez parte da equipe idealizadora.  

Este jornal me ensinou a construir e preservar amigos. Foi a grande lição que carrego no rastro da convivência na redação.

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José Nunes
José Nunes

José Nunes é jornalista e membro da Academia Paraibana de Letras (APL).