terça-feira, 16 de junho de 2026
A tabuleta de Custódio
16/06/2026

Num dia ensolarado, que poderia ser lembrado como marco do início de uma época abundante em benefício à população, foi o começo de uma fase nublosa, composta de tipos humanos de abomináveis de atitudes, podendo-se resumir em falcatruas e dilapidação do bolso alheio pelos atos praticados.
Machado de Assis no romance “Isaú e Jacó”, e historiadores de variadas tendências, registram que por ocasião daquele 15 de Novembro o povo saiu às ruas do Rio de Janeiro sem saber o que estava acontecendo, acreditando ser mais uma manifestação pública de apreço ao regime que, em quase meio século de vigência, tinha um velhinho de barbas branca bem-amado e admirado, cortês no trato para com seus súditos, por isso desfrutando do respeito da nação.
Três décadas depois, na mesma data, Lima Barreto recorda a movimentação da rua, igualmente sem entender o que estava acontecendo, tão desinteressada se apresentava a população. Mais se comoveu com a morte da Imperatriz brasileira banida da convivência com o povo, ocorrida naquela época.
Ambos os escritores, de incontestável volume de conhecimentos, nos deixaram o retrato do regime de generais que golpearam a Monarquia, repetindo a cena da traição no Senado romano, quando César foi apunhalado por Brutus. “Até tu, Deodoro”, poderia ter dito Dom Pedro II, mas este preferiu o silêncio para evitar derramamento de sangue.
Atribui-se a Machado de Assis um texto no qual implora nunca permitisse implantar no Brasil o sistema republicano, porque seria “o nascimento da mais insolente aristocracia que o sol jamais iluminou”. Ele declarou respeito pela Monarquia, e escreveu: “O imperador tem as duas qualidades essenciais ao chefe de uma nação: é esclarecido e honesto. Ama o seu país e acha que ele merece todos os sacrifícios”.
No romance “Isau e Jacó”, Machado trata da descrença de Custódio que, com a chegada da República, estando num impasse quanto a tabuleta de identificação de sua loja comercial, se mantinha ou não o nome de “Confeitaria do Império”. “Vai que daqui a dois meses, se houve uma reviravolta”, diz o personagem, porque o povão não levava a sério o que estava acontecendo.
Em novembro de 1921, trinta e dois anos depois da deportação do querido monarca, Lima Barreto ressaltou que a República estava soterrada no lamaçal que preparou. Depois de passear pelos arredores da cidade, diante do estarrecedor quadro social da capital federal à época, sorumbático, escreveu: “São será, pensei de mim para mim, que a República é o regime da fachada, da ostentação, do falso brilho e do luxo parvenu (novo-rico), tendo como repoussoir (contrataste, contraposição) a miséria geral”.
Se cronista carioca qualificou a República que presenciou nascer como desprezível, grande seria sua angústia vendo os destroços dos tempos que se sucederam até o momento atual, mesmo com a quebra das oligarquias advindas de 1930. Se os poderosos perderam a pose de barão, ganharam com outra rotulação, continuaram manipulando golpes, fabricando falcatruas, e rapando o cofre público… Essa é a República que nasceu podre, submissa aos mandões estrangeiros, e como escravos os brasileiros esperam migalhas.
Continuo com a menção de Machado de que a República é nome numa apodrecida tabuleta suspenso na parede balançando-se ao vento, que pode despencar no instante em que encontrar um novo Spartacus ou Gandhi.

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José Nunes
José Nunes

José Nunes é jornalista e membro da Academia Paraibana de Letras (APL).