Onde estão as vozes proféticas?
06/06/2026

A colaboração às instituições de caráter temporal apontava apenas que “por sua doutrina, ensina aos cristãos que, mesmo em um mundo que perdeu sua unidade espiritual, é necessário existir cooperação entre os Poderes Temporais e Espirituais, tendo em vista o bem comum, o bem-estar do povo que constitui a grande família dos filhos de Deus”.
Ajuntadas as preocupações quanto aos problemas sociais, a conjuntura humana – homens sofrendo com a seca, do pauperismo, de baixo nível de vida –, os grupos de estudos apontaram ações para o campo econômico, social e espiritual, visando minimizar alarmante situação que se arrastava há séculos.
Foi neste Encontro que ganhou força a germinação da CNBB, essa instituição basilar da Igreja no Brasil que tem assumido firmes posições em favor do povo.
Ao fazer memória deste Encontro, recordamos os momentos posteriores a Igreja no Nordeste foi profética, orientou e esteve junto ao povo, a exemplo dos camponeses, apoiando suas reivindicações. Mesmo que em parte a Igreja tenha se tornado mais de louvação, cada vez mais surgindo “pastores mediáticos”, sempre suscitou atitudes proféticas.
As ações contribuíram para amenizar a situação de penúria em grande parte do Nordeste. Surgiram sinais proféticos, apesar da região continuar agonizando devido outros males. Apoiando as propostas, o governo sinalizou com ações, a exemplo da criação da Sudene e outros órgãos.
Cobrando mais verbas para o Nordeste, o plano constava de 22 ações que contemplavam as regiões com obras que trariam melhoria na qualidade de vida da população. “Sabe-se, sem maiores esforços, que os planos se estribam em fatos concretos”, dizia a nota.
Ficou a certeza de que todos unidos, buscando os mesmos objetivos, as soluções aparecem. Na conjugação de esforços bilaterais podem surgir bons frutos, tendo um plano de ação exequível e eficiente.
Muita coisa boa aconteceu depois daquele Encontro dos Bispos em Campina Grande. Buscando uma saída, a Igreja se abriu ainda ao diálogo com a sociedade.
Aquelas vozes proféticas deixaram lições. Desde então, as cartas pastorais e pronunciamentos focaram a realidade do campo e das periferias urbanas. Muitas vozes se levantaram para denunciar a opressão dos “coronéis” das usinas e a ineficiência do poder público que relegava os fustigados pela seca.
Baseados na doutrina social da Igreja, que foca na dignidade humana, os bispos percebiam que somente a partir de uma reforma do sistema de acesso à terra e o fortalecimento da economia seria capaz de trazer paz e dignidade às famílias agricultoras. O campo produzindo e a cidade industrializando, assim pensava Celso Furtado.
Duas figuras proféticas da Igreja patrocinaram avanços em favor dos excluídos, por isso foram perseguidos pelo regime militar: Dom Helder Câmara e Dom José Maria Pires.

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José Nunes
José Nunes

José Nunes é jornalista e membro da Academia Paraibana de Letras (APL).