quinta-feira, 4 de junho de 2026
Um engenho com muitas vidas
04/06/2026

Todas as vezes que vou ao engenho Laranjeiras, em Serraria, chegam imagens de quando pela primeira vez andei por sua bagaceira, numa manhã chuvosa de maio, na companhia de minha madrinha Rita.
Estávamos nos primeiros anos da década de 60, marcando-me as imagens do bagaço de cana molhado, o cheiro de mel cozido em grandes tachos de ferro, tomando conta da toda a encosta em redor do engenho e da casa-grande.
Algumas décadas depois, ali retornei para um evento que reuniu os filhos e amigos de Serraria, mas diante da folia natural desses reencontros não penetrei na magia do lugar, como me aconteceu em outras oportunidades.
Agora quando regressei para uma visita ao seu proprietário Francisco Barreto, possibilitei a minha alma retornar até as mais distantes lembranças, como daquela manhã nebulosa quando em todo o percurso da caminhada de Tapuio até o engenho Laranjeiras era protegido pelo guarda-chuva de minha madrinha.
Formando um conjunto arquitetônico invejável, este engenho e a casa-grande, construídos no ano de 1906, cujas paredes guardam episódios inesquecíveis de nossa história, o registro de tempos passados quando muita gente deu vida ao lugar e seus arredores, são motivos de orgulho para nós serrarienses.
Com esmero, Barreto trata as terras do engenho Laranjeiras como algo muito precioso. Transformado em maior área de preservação ambiental particular do Brejo, o lugar poderá ser utilizado para fins educativos.
Foram plantados centenas de pau-d’arcos roxos, brancos e amarelos e nasceram araçás e palmeiras – símbolo da cidade –, dando um novo colorido à arquitetura e ao mobiliário antigo, preservados a um alto custo.
Mesmo não estando fabricando rapadura ou cachaça, como outrora, encontramos um engenho com muitas vidas, guardando marcas do seu apogeu nas paredes transpassadas pelo olhar do tempo. Em torno existem as fontes de águas límpidas recuperadas e exuberantes flora e fauna que encantam a alma.
Enquanto conversávamos, das fontes jorrava água cristalina que refrescava nossas mãos e nossa alma, a mesma água que saciou minha sede quando criança.
Na mata ao redor do engenho e da moradia, os tamanduás e outros animais passeavam tranquilamente, enquanto as juritis, os canários da terra e galos-de-campina se revezavam nas sinfonias com as cigarras. Foi uma manhã prazerosa retornar ao Laranjeiras de minha infância, um engenho com muitas vidas.

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José Nunes
José Nunes

José Nunes é jornalista e membro da Academia Paraibana de Letras (APL).