terça-feira, 7 de julho de 2026
Às margens do Paraíba 
07/07/2026

Quando nos aproximamos das margens do Rio Paraíba, depois de São Miguel de Taipu em demanda do Pilar, as personagens de José Lins do Rego saíram das páginas de seus romances para seguir conos-co, com fizeram há décadas quando por esse mesmo caminho cheguei ao Engenho Corredor.  

Repórter principiante e leitor revelado nas páginas de Menino de Engenho, carregava comigo o gosto da garapa e cheiro do mel cozido dos engenhos de Chico Frazão e de Antônio Carvalho, quando percebi no Engenho Corredor as paisagens de minhas andanças de menino. As páginas de José Lins revelando o que trazia escondido no meu coração. 

Na tarde quando voltei a caminhar pela beira do rio belamente descrito por José Lins em seus romances, recordava a paisagem dos li-vros que descreveu a vida dos engenhos do começo do século XX. O verdor dos canaviais de outrora, com o cheiro de jasmim e as flores dos ipês roxos, repuxaram-me às páginas que trazem revelações que a alma retém.  

Como falaram em tempos passados, pensei que a beleza salvará o mundo, porque traz emoção à vida. As narrativas de José Lins conse-guem renovar essa alegria de viver porque carregam a alma de nossa gente. 

Enquanto caminhava pela estrada onde tilintavam as campainhas do cabriolé do velho Lula de Holanda, onde o coronel José Paulino es-quipava em seu cavalo com sela coberta de coxim macio, Papa-rabo fazia suas estripulias, descobriu que pouco resta das paisagens e José Lins do Rego. 

Enquanto estava na varanda, observando a paisagem da Várzea do Paraíba, era como escutar o som do piano da solteirona Neném dei-xando a sala para chegar aos ouvidos. O repique do sino na Igreja con-tinua a revelar o chamado à missa dominical, como antigamente. Pare-cia até escutei o capitão Vitorino Carneiro da Cunha a pronunciar des-pautério, com seu rebenque a rodopiar no ar para açoitar moleques que o chamavam de Papa-rabo.  

Quando me dei conta, estava em frente ao antiga Casa da Câmara e Cadeia, abismado com sua imponência, a recordar as cenas que, no passado, este prédio testemunhou. Paredes que contam a história de resistência, um tanto esquecida. Do frontal larguei a vista em demanda da extensa praça como se estivesse numa manhã de domingo, de feira e de missa, com a cabroeira dos engenhos sem remoço frequentavam as esquinas da feira de mangai que o tempo apagou.  

Ali esteve o monarca Dom Pedro II, o que bastaria para fazer memória, apesar do prédio ter testemunhado momentos significantes da história, como a presença de Antônio Silvino, cangaceiro respeitado que libertou os presos sem temer represálias. As grades de ferro da pri-são guardam as marcas das mãos do cangaceiro. 

O encarnado do entardecer cobria os telhados sujos de lodo, dei-xava a paisagem urbana-rural com bonito aspecto.  As paredes grossas e as janelas amplas lembram o ambiente dos antigos coronéis, donos das terras e de almas. Nas salas reluzia o Sol que entrava pelas frinchas das janelas. 

Sempre retorno a Pilar seguindo as margens do Rio Paraíba e pe-las páginas de José Lins.

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José Nunes
José Nunes

José Nunes é jornalista e membro da Academia Paraibana de Letras (APL).