Na ausência de Comblin
04/07/2026

         O cascalho poeirento que acolheu o corpo de padre José Comblin não se modificou, nas palavras dele estão no coração daqueles que as acolheram como sinal de alimento espiritual.

         Suas palavras de libertação tiraram poeira dos olhos de muitos por toda a América Latina, que ouvindo seus ensinamentos, rasgaram as roupas de sede e brim para usar chita de algodão. Semelhantes aos prediletos do Pai juntam-se num afoito projeto de salvação silenciosamente edificado.

         A terra pedregosa e esturricada de Arara que acolheu o corpo do profeta padre Ibiapina, no terceiro quarto do século XIX, é a mesma que no começo do século XXI abriu-se para receber Comblin, este teólogo-profeta que mostrou caminhos que levam a uma vida sem panela vazia.

         Estes dois padres carregaram a sina dos que se apaixonam pelos prediletos de Jesus, que são os pobres vivem numa luta desigual contra quem acumula poder e riqueza, mesmo que tenha bebido da mesma água barrenta e puxado cobra para os pés. Surrupiam até mesmo migalhas, enquanto se banqueteiam nos palácios usufruindo das vertentes dos cofres públicos.

         Estes dois profetas deixaram o legado para uma igreja que esteja onde se encontram os desvalidos, os explorados, os que buscam paz. Lutaram pela igreja pé no chão, mesmo com pedregulhos. A libertação como horizonte a ser conquistado. Para eles, o reino de Deus liberta de quem explora seus semelhantes.

         Todas as vezes que retorno à Arara para rever familiares e amigos, visto os túmulos onde adormecem estes dois padres, modelos e fontes de inspiração para quem deseja aproximar-se do projeto de Jesus.

         Certa vez, num final de tarde quando estive em Santa Fé, retornando ao lugar onde tantas vezes caminhei desde minha juventude, observei que crescia na terra que agasalhou o Comblin uma flor que se agitava, plantada por mão calejada, crescida com o águo do sereno. Meu silêncio comprometedor, derramei silenciosas lágrimas, sentindo o clamor de Ibiapina que implora a continuidade de sua missão. 

         Naquela terra que conquistou estes dois profetas, eu derramei suor cavando o chão onde depositei grãos de esperança, confiante de que com a água descida do céu o roçado seria aspergido e que a colheita encheria nossa panela.

         Quando completou cinco anos de morte de Comblin, novamente o campo santo onde ele repousa atraiu-me com lições reveladoras. Seus gestos saem dos livros que escreveu para se consolidar nas atitudes. Precisamos fazer com que a Igreja sonhada e protagonizada por ambos se concretize, a começar pela ausência da opulência.

         Aquilo que Ibiapina, apóstolo dos pobres, protagonizou com o olhar de Jesus, Comblin esclareceu à luz da teologia.  Comblin abriu caminhos que tocam anônimas pessoas, como a que cultivou a planta silvestre no recanto do túmulo onde está sepultado. Sua ausência continua sendo sentida.

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José Nunes
José Nunes

José Nunes é jornalista e membro da Academia Paraibana de Letras (APL).