Uma das passagens mais empolgantes da Bíblia é a que narra o retorno de dois discípulos à comunidade rural de Emaús, após a crucificação de Jesus. Jesus caminhava com eles, explicava as Escrituras e os episódios do martírio em Jerusalém e a ressureição, que aconteceu três dias depois. Somente quando repetiu o gesto da Ceia, os olhos deles se abriram e identificaram que se tratava do Messias.
Em proporções e situações eminentemente humanas, depois que Nathanael Alves fez sua Páscoa no dia 28 de abril de 1981, comecei a entender suas palavras, dando conta da importância das lições que havia me transmitido e como me ajudou a acessar os livros. Ele foi a aragem da minha primavera literária.
Durante anos trocamos experiências e conhecimentos. Ele falava da sua vivência com os livros e com a terra, quando repartia o tico de farinha para as magras refeições entre pessoas do mesmo naipe.
Quando se completaram 45 anos da morte de Nathanael Alves, acometido pelas lembranças e a saudade, retornando ao terraço de sua casa em Tambaúzinho, lembrei de nossas conversas. O lugar continua igual ao período quando promovia os encontros com os amigos, preferencialmente aos sábados e domingos. Os assuntos eram sobre a crônica do jornal, o lançamento de livros, o novo filme em exibição, a peça teatral, os acontecimentos políticos…
Na casa de Nathanael tivemos bate-papos animados que também convergiam para os temas do cenário político, mas o foco principal era sobre as artes, com destaque para a literatura.
As conversas no terraço, todos em círculo, lembravam os encontros no terreiro do sitio em Serraria, para debulhar feijão e milho, destalar fumo para a trança das cordas ou a raspagem de mandioca para ralar no rodete na casa-de-farinha.
Os participantes das reuniões eram aspergidos pela fresca aragem da cultura e muitos descobriram o prumo para seus projetos literários.
Nathanael Alves carregou a sina de ter nascido em um lugar de poucas oportunidades. Era um tempo quando as necessidades abundavam e os caminhos estreitos nem sempre eram transitáveis. Ele cresceu em uma região de pobreza impetuosa, de miséria inaceitável, mas nunca ultrajou a paisagem da vida. Foi forjado no silêncio e na espera de algo que não sabia de onde surgiria. O destino de todos era o cabo da enxada puxando cobras para os pés. “Mas tu, tu nascente para um dia límpido” (Höderlin), uma frase que pode se aplicar ao seu caso. As veredas de Arara e Serraria o conduziram até o Padre José Coutinho, um benfeitor que recolhia os deserdados da sociedade. Este benfeitor católico deu agasalho e apontou horizontes para filhos das brenhas, e faz com Nathanael deixasse de ser nada.
Ele costumava dizer que nós, ocupando as primeiras cadeiras em lugares elevados, devemos escutar as vozes dos que sofrem. Se andamos em barco suntuoso, nunca esquecer as ondas que causam aflições no lugar de onde viemos. Quando alimentados por essas vozes proféticas, nunca se furtar de contribuir para amenizar as agonias do vizinho, mas sentir a mesma dor do irmão e, sem cessar, buscar solução para a dor. Em todos os momentos e sobretudo nas tribulações, Nathanael sempre tinha gesto franciscano no acolhimento e um abraço fraterno.
Durante toda sua vida recolheu saberes e espalhou conhecimentos, sempre buscando ensinamentos para fortalecer a caminhada profissional e familiar. Não é demais lembrar que nos ensinou amar e guardar a memória da nossa terra, fazendo do lugar onde nascemos o espojeiro da criação literária.
Ele sempre proporcionava a paz entre as pessoas, buscava respostas para os tormentos e, com isso, cooperava com o homem rasgado pela opressão.
Nathanael era um homem muito simples, e somente uma pessoa profunda em sentimento místico, como ele, reconhece essa profundidade do amor ao próximo. Seus gestos afloravam simplicidade. Sempre mantinha o semblante sereno, nunca se irritava. Mesmo em momentos de grandes aflições, jamais desfigurou seu rosto em sinal de aperreio. Até na dor demonstrava ser um homem alimentado por uma força que vinha do alto.
Nathanael, Emaús e eu
30/04/2026
sobre
José Nunes
José Nunes é jornalista e membro da Academia Paraibana de Letras (APL).