*Por João Modesto Filho
Como esperávamos, o EASD 2026 trouxe mudanças importantes para o presente e também trouxe pistas sobre o futuro. Uma das áreas médicas que está avançando rapidamente diz respeito ao tratamento medicamentoso da obesidade e do diabetes. Já observamos que a primeira geração de incretinas modificou bastante a prática clínica, e agora estão surgindo novos medicamentos que são capazes de atuar simultaneamente em diferentes setores do nosso organismo. Nesse sentido, a retatrutida, uma das drogas mais discutidas no Congresso, combina GLP-1, GIP e glucagon. No estudo denominado TRIUMPH-2, realizado em pessoas com obesidade e diabetes tipo 2, foram observadas expressivas reduções do peso e de hemoglobina glicada. Entretanto, é urna droga que ainda está sendo estudada e não deve ser utilizada fura das indicações regulatórias.
Um outro estudo que está em franco desenvolvimento combina a tirzepaticla com erolalintida, que é uma substância relacionada à ação da amilina. Os resultados iniciais apontam para uma nova possibilidade de tratamento da obesidade e do diabetes. A lógica é interessante e parte do princípio de que diferentes hormônios podem atuar em mecanismos complementares da fome, saciedade e metabolismo.
Por seu turno, a combinação de semaglutida com cagrilintida, conhecida como CagriSema, segue essa mesma tendência. Essa linha de pesquisa procura não apenas reduzir o peso, mas compreender como essas terapias modificam o comportamento alimentar.
Outra frente importante de estudos foram as pesquisas que buscam transformar medicamentos injetáveis em alternativas orais. Assim, a semaglutida oral representa uma possibilidade interessante para ampliar a aceitação e o acesso ao tratamento. Mas ainda será necessário acompanhar eficácia, segurança, adesão e resultados de longo prazo.
Em relação ao diabetes tipo 1, pesquisas sinalizam que poderemos ter em pouco tempo transformações ainda mais profundas. Hoje, já podemos identificar pessoas em fases anteriores ao aparecimento do diabetes clínico. As novas pesquisas passam a trabalhar com estágios da doença, incluindo indivíduos com autoanticorpos e alterações metabólicas antes da hiperglicemia manifesta. Isso poderá nos permitir ter uma medicina que não vai esperar o diabetes aparecer para começar a agir.
Nesses termos, a imunoterapia representa outra grande fronteira.
Uma substância chamada teplizumabe demonstrou capacidade de retardar a progressão para o diabetes tipo 1 clínico em pessoas de alto risco. Vários outros estudos foram mostrados com estratégias imunológicas com o objetivo maior de preservar a função das células beta.
Mas, mesmo quando elas não puderem ser preservadas, teremos uma outra possibilidade, que é substituí-las. Daí que células derivadas de células-tronco estão sendo estudadas como fonte de novas células produtoras de insulina. Foram também discutidas pesquisas envolvendo encapsulamento celular e ilhotas pancreáticas de origem suína. O grande desafio continua sendo impedir que o sistema imunológico destrua as células transplantadas. Caso esse obstáculo seja superado, o tratamento do diabetes tipo 1 poderá sofrer uma transformação histórica.
Por seu turno, a tecnologia também continua avançando. Sensores de glicose, bombas de insulina e algoritmos já conseguem trabalhar de forma integrada. Nesse sentido, a próxima etapa será tornar esses sistemas ainda mais inteligentes e individualizados. A inteligência artificial poderá identificar padrões que escapam à nossa observação e auxiliar na previsão de alterações glicémicas e na tomada de decisões terapêuticas. Mas será necessário validar cuidadosamente segurança, privacidade e responsabilidade médica.
Por tudo isso, o conceito de medicina de precisão deverá ganhar espaço. Dessa forma, em vez de procurar saber qual medicamento funciona melhor, deveremos saber para qual paciente determinado tratamento funciona melhor.
Nesses termos, genética, fenótipo metabólico, composição corporal, comportamento alimentar e comorbidades poderão participar dessa escolha. Ficou bem estabelecido que o diabetes deverá ser cada vez menos tratado como uma doença única. Dessa forma, poderemos reconhecer diferentes fenótipos, com diferentes mecanismos e diferentes respostas terapêuticas. Isso está representando uma mudança profunda na endocrinologia.
Em suma, o futuro não será apenas de medicamentos mais potentes e sim de tratamentos mais específicos, combinados e individualizados. A prevenção deverá começar antes do aparecimento das manifestações clínicas e a tecnologia poderá acompanhar o paciente continuamente.
Por fim, a grande promessa do EASD 2026 foi o de transformar o tratamento do diabetes de uma medicina predominantemente reativa em urna medicina cada vez mais preventiva, personalizada e capaz de modificar a história natural da doença.
* Médico endocrinologista -:CRM PB 973 / RQE 1026