*Por João Modesto Filho
O 62º Congresso Anual da Associação Europeia para o Estudo do Diabetes (EASD), realizado em Milão entre 28 de setembro e 2 de outubro de 2026, trouxe avanços que impactam diretamente o tratamento do diabetes, da obesidade e das complicações cardiovasculares e renais. Mais do que novos medicamentos, o encontro mostrou uma mudança na maneira de compreender e tratar essas afecções.
Sabemos que durante décadas o tratamento do diabetes esteve centrado principalmente na redução da glicemia. Hoje, temos algo mais amplo, qual seja proteger o paciente corno um todo. Isso significa cuidar simultaneamente da glicemia, do peso, do coração, dos rins e do fígado.
Um dos pontos de destaque do evento foi sobre o novo consenso ADA/EASD 2026 que incorpora claramente essa visão integrada. A hemoglobina glicada continua importante, mas deixou de ser o único objetivo. Isso significa que em pessoas com doença cardiovascular, renal ou insuficiência cardíaca, a escolha do tratamento deve também ser orientada para proteção desses órgãos.
Assim sendo, os inibidores de SGLT2 consolidaram seu papel na proteção cardiovascular e renal. Por seu turno, os medicamentos baseados no GLP-1 ganharam espaço pelos efeitos sobre glicemia, peso e risco cardiometabólico. A tirzepatida, por exemplo, que combina GIP e GLP-1, representa uma das principais expressões dessa nova fase do tratamento.
Em termos gerais, a mensagem prática foi a de que o tratamento do diabetes deve ser individualizado. Assim, o mesmo medicamento não precisa ser a melhor opção para todos os pacientes. Uma pessoa com obesidade pode ter como prioridade a redução ponderal. Outra, com doença renal, poderá necessitar de maior ênfase na proteção renal. Em outra, a prioridade poderá ser a prevenção cardiovascular.
Dessa forma, a obesidade é uma doença metabólica que frequentemente participa da origem e da progressão do diabetes tipo 2. Por isso, perder peso passou a ser uma medida terapêutica.
É fato que as novas terapias incretínicas estão produzindo reduções de peso que anteriormente eram difíceis de alcançar com medicamentos. Mas isso não significa que todas pessoas devam utilizar esses tratamentos. Por isso, indicações, contraindicações, efeitos adversos, custo e acompanhamento médico continuam fundamentais. Nesses termos, a retatrutida é um exemplo importante dessa nova geração, sendo uma substância que atua sobre GLP-1, GIP e glucagon e que vem apresentando resultados expressivos em estudos clínicos. Entretanto, permanece em estudos e resultados apresentados em congressos não significam autorização imediata para uso clínico.
Um outro avanço de destaque foi o relacionado à utilização crescente do monitoramento contínuo da glicose. Assim, o paciente passa a conhecer não apenas a glicemia de jejum, mas o comportamento da glicose durante todo o dia. O conceito cada vez mais importante de “tempo no alvo” faz uma complementação à hemoglobina glicada e é especialmente importante para pessoas tratadas com insulina.
Por seu turno, as bombas de insulina e sistemas automatizados estão tornando o tratamento do diabetes tipo 1 mais personalizado. Já a inteligência artificial começa a ter participação na interpretação dos dados obtidos pelos sensores. Entretanto, tecnologia por si só não substitui o médico e nem a participação ativa do paciente. Ela deve transformar grandes quantidades de dados em decisões clínicas úteis.
Por outro lado, mereceu especial atenção a proteção renal, que passou a ocupar posição central no tratamento do diabetes. Em termos de medicamentos, foram discutidas algumas associações envolvendo SGLT2, GLP-1 e finerenona. O próprio consenso ADA/EASD 2026 reforça o papel dos SGLT2 na proteção renal, reconhece benefícios renais dos GLP-1, além dos efeitos benéficos da finerenona. Essa possibilidade de tratamento cardiorrenal com combinação de drogas deverá ocupar cada vez mais espaço na endocrinologia.
Ainda tivemos definições de que diabetes e doença hepática gordurosa precisam ser avaliadas conjuntamente. O fígado, o tecido adiposo, o músculo, o coração e os rins fazem parte de uma mesma rede metabólica. Essa visão está modificando significativamente uma consulta com o endocrinologista. Estamos adicionando outros valores além da glicemia. Faz-se necessário perguntar também sobre peso, alimentação, atividade física, pressão arterial, colesterol, função renal e saúde cardiovascular.
Quanto ao diabetes tipo 1, o avanço é igualmente significativo. O tratamento moderno amplia a atenção para tecnologias, prevenção de complicações e identificação precoce das pessoas com possibilidades de risco. O tratamento está, portanto, cada vez mais centrado na pessoa. A meta não é apenas fazer a glicose baixar, mas preservar órgãos, reduzir complicações e melhorar qualidade e expectativa de vida.
A EASD 2026 mostrou que estamos entrando em uma nova era da diabetologia. É uma era em que glicemia, peso e proteção de órgãos devem caminhar juntos. Enquanto para o paciente isso significa mais possibilidades terapêuticas, para o médico temos uma responsabilidade maior, qual seja escolher o tratamento adequado para a pessoa certa e no momento certo.
* Médico endocrinologista – CRM PB 973 / RQE 1026