Havia descido do ônibus no bairro onde moro, com exemplar do jornal A União na mão. Aguardando para atrasar a rua, um carro para ao meu lado. Tomo um susto. O motorista baixo o vidro da porta e, de supetão, pergunta onde eu tinha comprado o jornal. Logo respondi, indicando os locais onde são comercializados jornais e revistas.
– Ainda temos jornal impresso?
– Sim, temos.
– Quero comprar para mostrar aos meus filhos.
Despedindo-se, acelerou o carro, com um sorriso de agradecimento. Entrou na esquina seguinte e sumiu na tarde de céu nublado e vento impetuoso de agosto.
Gosto de andar de ônibus porque permite esse contato com as pessoas e escutar conversas, sentir o povo expressar seus sentimentos. Esse povo, aparentemente, simples, mas sempre com uma lição a nos oferecer. Nos ônibus pulsa o coração da cidade. Com gente dando bom dia, outros de cabeça baixa a olhar a tela do celular. E possibilita observar quem passa nas proximidades. Olhamos de perto as pessoas. Os que cruzam a rua estão ali, desconhecidos, estamos juntos. Morar em bairro com casas é diferente, é uma coisa boa, melhor do que em aglomerado vertical.
Quando o carro se foi, deixou comigo as palavras de um motorista desconhecido que me remeteu há décadas quando, jovem sedento por leitura, o jornal afluía para paisagens da vida em construção. Todos os dias, bem cedo, chegando na repartição, a leitura do jornal alicerçava os caminhos do dia.
Muitas vezes, enquanto habitante noturno das redações de jornais, esperava os primeiros exemplares do jornal serem impressos para sair com o meu debaixo do braço.
O cheiro da tinta fresca no papel continua como lenitivo, alguns anos afastados do dia a dia dos jornais. Era um prazer que se revelava nas lembranças da conversa agradável nas redações. Apego que se prolonga aos dias atuais, mesmo sem estar na correria da redação. O jornal que se transformou para mim em uma atividade prazerosa.
Apesar de todos os avanços nos sistemas de comunicação, o jornal continua sendo definitivo para reunir informações sobre o dia a dia da sociedade. Documenta e perpetua a vida da cidade, registrando os fatos para a história. A História que registrada para a pesquisa.
As coleções dos jornais e revistas impressos, guardados em arquivos de bibliotecas e museus, são objetos visíveis.
Tenho jornais com registros históricos que ajudam nas minhas pesquisas. Tenho guardadas páginas amareladas com pequenos textos publicados na coluna Agenda, do jornal O Norte, que trazem lembranças e emoções recolhidas a partir de 1976. Foi o tempo em que estava dando meus primeiros passos nas redações, que se repetiram no decorrer destes anos.
Louvável as iniciativas de manter em funcionamento jornais e revistas impressas, como é o caso da centenária A União.
Mostro aos meus netos jornais antigos, as coleções com o registro de fatos dos acontecimentos do tempo de minha infância, da época quando minha filha iniciou no jornalismo.
Naquela tarde, ainda olhava o carro à frente com o estranho passageiros quando meu pensar se voltou para as tardes e noites quando chegava ao jornal. Era meu viver rotineiro, tudo realizado com o prazer que as redações proporcionam. A camaradagem suplantando os salários baixos e, às vezes, pagos com atraso. Mesmo em situação semelhante, um colega socorria o outro na estiagem financeira.
Muitas vezes eu converso com a memória para recordar tudo o que passei nestes cinquenta anos de jornalismo, em etapas diferentes, navegando entre as redações e as assessorias de imprensa.
Se não penetrei nas funduras das análises políticas e sociológicas como uns tantos de minha época, vaguei pelos aceiros dos fatos, dando ênfase ao noticiário, a reportagem para o registro histórico, a crônica como consolo.
O tempo passou. Os fios do destino foram entrançados sem atrapalhar ninguém, espichou minha vida e minhas amizades. Raspo no tacho da memória lembranças que se juntam nesse momento quando um desconhecido nos aborda na rua querendo acessar um jornal. Reconheceu a labuta de quem passou décadas atuando em redação, catando notícias e produzindo jornal impresso que, nos tempos atuais, parece coisa estranha.
Aquele homem que desejava mostrar aos filhos o jornal impresso era o sumo glorioso da população que olha para a cultura, vendo a Imprensa – essa imprensa distante dos artifícios cibernéticos – como instrumento de transformação.
Mesmo que a leitura seja em outros meios de comunicação, a leitura de livros e jornais impressos sendo luzes para as crianças, os jovens, os adolescentes, eis o caminho para transformar mentes e iluminar corações.
