Modelos e produtoras de conteúdo do OnlyFans estão com a pulga atrás da orelha — e não é no bom sentido. A terceira temporada de “Euphoria” resolveu dar um mergulho no universo das plataformas de conteúdo adulto, mas parece que mergulhou de cabeça num tanque raso.
A personagem Cassie, vivida por Sydney Sweeney, recorre ao OnlyFans para pagar dívidas. Até aí, plausível. Muita gente entra por necessidade, e o sexo sempre foi um dos negócios mais antigos do mundo. O problema, segundo profissionais do ramo ouvidas pela Variety, é o retrato caricato e humilhante que a série faz: Cassie é vista usando brinquedos sexuais, fazendo ASMR de sussurro, vestida de cachorro, tomando água em tigela e usando fralda como um bebê para alimentar fetiches de seguidores.
E aí, eu pergunto: qual o problema?
Calma, vou explicar.
Do ponto de vista de quem vive do conteúdo adulto com respeito e profissionalismo, a reclamação faz sentido: a série parece sugerir que todo trabalhador ou trabalhadora do OnlyFans está ali para se rebaixar, performar humilhação ou atender às demandas mais extremas com cara de desespero. Isso é reducionista e, sim, pode sim estigmatizar uma profissão que, para muitas pessoas, é sinônimo de autonomia, prazer e dinheiro honesto.
Mas — e aqui vai o lado Sem Vergonha da coisa — não dá para ignorar que o fetiche existe. E não há nada de errado em realizar fantasias envolvendo poder, submissão, animais (simbólicos, claro) ou regressão infantil, desde que seja consensual, seguro e prazeroso para todos os envolvidos. O problema não é a fantasia. O problema é quando ela é apresentada como a regra, ou como algo inerentemente patético.
“Euphoria” sempre gostou de chocar. Mas será que não faltou um olhar mais cuidadoso para mostrar que atrás da tela há pessoas reais, com estratégias, limites e, sim, orgulho do que fazem? Mostrar a Cassie numa tigela pode ser dramático. Mostrar a Cassie negociando valores, dizendo “não” para um pedido e gerenciando a própria carreira seria revolucionário — mas talvez menos instagramável.
No fim, a revolta das profissionais é legítima: ninguém quer ver seu trabalho reduzido a um meme triste. Mas, ao mesmo tempo, cabe a nós lembrar que fetiche não é vergonha. Vergonha é achar que explorar a própria sexualidade é, por si só, degradante.
Sem vergonha é tratar sexo como problema. Sem vergonha também é achar que toda fantasia é trauma. O que sobra, depois do episódio, é uma conversa que o mundo adulto já está maduro para ter: sim, o OnlyFans pode ser palco de fetiches profundos. E sim, isso pode ser retratado com dignidade.
Só faltou a “Euphoria” pedir umas dicas pra quem realmente entende do assunto.