João Pessoa, sexta-feira, 28 de agosto de 2026
Errare humanum est
27/08/2026

Concede-me, Senhor, sentir os meus erros.

Agostinho costumava passear por uma praça de Hipona. Ali perto estava o mosteiro, em cuja capela ele rezava cotidianamente. Esses instantes não eram contábeis. Não lhe interessava exibir saldos, débitos ou perspectivas. Também não era apenas uma conversa. Era, sim, uma revelação permanente: procurar-se, achar-se e, depois de achar-se, procurar Deus e achá-Lo. A partir daí, a comunicação dispensava sentidos, palavras e gestos.

Quando não conseguia encontrar-se, Agostinho se martirizava, às vezes liturgicamente, em estrita obediência aos ritos que aprendera e cuja beleza o dominava. Contemplava umas imagens lindas que havia no altar. De posse visual delas, voltava no seu tempo. Ah! Ele pensava o tempo subjetivamente, como um presente de instantes contínuos, sem depois, embora o admitisse na vida comum.

Não se imaginava fora dos seus momentos. Isso o justificava: contemplava o belo, e não as imagens, às quais não dirigia orações ou queixas, senão admiração — especialmente por aqueles que as haviam produzido. Sequer o espelho lhe rendia glórias. Era um crítico severo de si.

Sabia, entretanto, que ser juiz de si mesmo o afastava da graça. E a graça de Deus só vinha quando, em si, ele — senhor de todos os seus orgulhos, que nada mais são do que autoelogios na fronteira da soberba — contemplava a face de Deus, comparava-se e dizia:

— Eu nunca vou conseguir.

Dizia-o vestido de incredulidade, mas saía, durante o passeio, contemplando as pessoas e tudo à sua volta, sem saber que por elas também era escrutinado.

Ele não via Deus. A rigor, não O sentia. Todavia, Agostinho caminhava com a consciência de que errar é um conceito humano e de que, para bem viver, prefere-se escolher no erro alheio um conceito de certeza.

Mesmo assim, guardava consigo a certeza de que a graça é atributo divino, tão exclusivo e excludente, que não mede erros nem acertos; a graça atende pela dignidade. Para quem ela acha digno, a graça revela-se.

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