
Rosário tipológico
O presidente da Câmara dos Deputados acusa publicamente o presidente do Tribunal de Contas da União e seu irmão, senador da República, de chantagearem e coagirem prefeitos para que votem assim ou assado.
Não sei se é verdade.
Mas sei que a acusação é verdadeira: foi feita.
E uma acusação dessa gravidade, feita pelo presidente de um dos Poderes da República contra o presidente do TCU e um senador, não pode simplesmente entrar no noticiário pela manhã e sair pela porta dos fundos à tarde.
Onde estão os órgãos de fiscalização?
Ministério Público?
Polícia Federal?
Procuradoria-Geral da República?
Comissões parlamentares?
E cadê aquele esmero dos políticos de oposição, sempre tão cuidadosos com a República, mas agora tão pouco interessados em provocar esses órgãos para que se apure o caso?
A ironia é ainda maior.
O próprio TCU, às vésperas das eleições, entrega à Justiça Eleitoral a relação dos responsáveis por contas julgadas irregulares — relação em que aparecem administradores municipais e que pode produzir consequências políticas e eleitorais.
Ótimo.
É exatamente esse zelo que se espera das instituições da República.
E o STF acompanha, com lupa, o destino das emendas parlamentares, impondo exigências de transparência e rastreabilidade e determinando providências destinadas a esclarecer a aplicação dos recursos públicos.
Ótimo.
E a lupa do STF, onde está?
Se há tanto cuidado com o dinheiro que chega aos municípios e com os prefeitos que o administram, uma acusação pública de que prefeitos estariam sendo coagidos mediante a influência de um órgão de controle não mereceria, no mínimo, o mesmo cuidado?
Porque só há duas possibilidades — e ambas são graves:
ou a denúncia é verdadeira e precisa ser investigada;
ou é falsa e o presidente da Câmara está imputando a duas autoridades da República condutas gravíssimas que elas não praticaram.
O que não existe é a terceira possibilidade:
ninguém querer saber.
