
Irapuan, meu pai, obrigado!
Na Serra do Braga, corre uma lenda de que há um pássaro cujo nome não pode ser pronunciado mais de uma vez e cujo canto jamais se repetiu.
Ele só põe um ovo.
Ninguém sabe sua origem nem seu gênero. Dizem que é fêmea, macho ou aquilo que, por aquelas bandas, chamam de anjo.
Sabe-se apenas de histórias antigas, nunca comprovadas fora da fé, segundo as quais anjos apareciam do nada — ou do tudo, na contradita.
Um fato curioso dizia que, quando nascia o filhote, o PAI o criava até o dia de empurrá-lo do alto da serra, na direção do Riacho dos Patos.
Somente lhe eram permitidos dois socorros.
Na vitória da desdita, o pássaro-anjo desaparecia por muito tempo, geralmente o dobro do comum. Sua ausência marcava, na região, um longo período de estiagem. Há quem o chame, por esse efeito, de Mãe das Nuvens.
No êxito, porém, o filhote abria as asas, dava um rasante, fazia um loop e voltava apenas para beliscar os pés do pai, em despedida.
Eles se apagavam mutuamente.
Fora deles dois, todo o universo e o tempo eram comuns.
Só voltavam a se encontrar num duelo, quando o pai devolvia as beliscadas. A passagem de um deles anunciava a chegada de outro anjo, porque não viviam sem o par.
E assim seguiam, pai e filho, entre encontros e despedidas, até o dia de VOLTAR AO CÉU.
