João Pessoa, quinta-feira, 17 de setembro de 2026
TCC de Agronomia da UFPB desenvolvido nos Estados Unidos investiga monitoramento de praga agrícola
22/08/2026 21:34
Ascom/UFPB Arquivo de Iago Isidoro

Uma experiência acadêmica ainda rara no Centro de Ciências Agrárias (CCA) da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) levou o estudante Iago Venancio Isidoro da Silva dos laboratórios do Campus II, em Areia, até campos experimentais no estado de Nebraska, nos Estados Unidos. Graduando em Agronomia, ele desenvolveu seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) na University of Nebraska-Lincoln. O estudo foi apresentado presencialmente e aprovado no último dia 15 de agosto, no CCA.

A pesquisa foi realizada entre os meses de maio a junho de 2026 e avaliou uma ferramenta para detectar a presença da mosca Meromyza americana, conhecida nos Estados Unidos como wheat stem maggot. O inseto pode atacar culturas de cobertura e representar risco para plantações de milho cultivadas posteriormente na mesma área.

Intitulado “Validation of yellow stick traps for infestation detection of Meromyza americana (Diptera: Chloropidae) in cover crop and corn”, o trabalho investigou se armadilhas adesivas amarelas poderiam ser utilizadas para identificar indivíduos adultos da praga em áreas cultivadas. O estudo também comparou a sensibilidade dessas armadilhas com a de redes de varredura entomológica.

Iago conta que a oportunidade surgiu por intermédio do professor José Bruno Malaquias, orientador na UFPB, em parceria com a professora Silvana Paula-Morais, do Departamento de Entomologia da University of Nebraska-Lincoln. A partir dessa articulação, o estudante passou de abril a agosto de 2026 na instituição norte-americana como aluno visitante, participando de atividades de pesquisa e extensão.

“O convite já veio com a oportunidade de desenvolver o Trabalho de Conclusão de Curso fora do país. Dentro das atividades que eu iria vivenciar, o TCC já estava previsto. Na University of Nebraska-Lincoln, encontramos a problemática e, a partir disso, definimos o tema”, contou Iago.

O trabalho foi apresentado presencialmente no Centro de Ciências Agrárias no último dia 15. Os resultados da pesquisa mostraram que as armadilhas adesivas amarelas podem ser utilizadas para detectar a Meromyza americana em cultivos de cobertura. Na comparação com as redes de varredura, as armadilhas apresentaram maior sensibilidade por permanecerem durante mais tempo nas áreas monitoradas, ampliando a possibilidade de captura dos insetos.

O trabalho também identificou uma limitação do método: as armadilhas podem atrair outros insetos da mesma família da Meromyza americana, o que dificulta a identificação das espécies por apresentarem características semelhantes. Mesmo com essa ressalva, a validação contribui para o monitoramento das lavouras e para o Manejo Integrado de Pragas, conjunto de estratégias empregado para acompanhar as populações de insetos e definir quando e como realizar medidas de controle.

“Esse pode ser um meio de detecção sensível e prático para o cotidiano no campo agrícola. A ferramenta facilita a visualização da infestação e pode auxiliar a pessoa responsável pela produção na tomada de decisão sobre as formas de controle”, explicou o estudante.

De acordo com Iago, a aplicação prática também está relacionada à redução do tempo e dos recursos necessários ao acompanhamento das áreas cultivadas. Uma detecção mais eficiente pode ajudar a evitar perdas de plantas e orientar intervenções mais precisas.

A trajetória

O caminho até Nebraska começou muito antes da viagem. Iago deixou Pernambuco para estudar na Paraíba e teve como primeira experiência acadêmica na UFPB o Composta-CCA, projeto de extensão por meio do qual entrou em contato com atividades universitárias além da sala de aula. Posteriormente, ingressou no Laboratório de Entomologia (LEN), onde permaneceu até o fim da graduação.

O estudante conta que foi no laboratório que aprofundou os conhecimentos na área, participou de atividades de ensino, pesquisa e extensão e desenvolveu habilidades que seriam empregadas posteriormente no trabalho realizado nos Estados Unidos.

“A graduação foi árdua e feliz. Saí de outro estado para estudar na Paraíba e meu principal objetivo era me dedicar ao curso para conseguir terminá-lo da melhor forma possível, melhorando minhas habilidades, reconhecendo as minhas limitações e buscando aprender algo novo nesse grande mundo da Agronomia”, relatou.

A trajetória também foi atravessada por perdas e pela distância da família. Durante a graduação, Iago perdeu a mãe e precisou conciliar o luto com as exigências acadêmicas e a construção dos primeiros passos profissionais. Ao relembrar o período, ele evita romantizar as dificuldades, mas reconhece a importância das relações construídas e das oportunidades encontradas ao longo da formação.

“Mas importantes amizades foram formadas, houve uma evolução profissional e pessoal, e projetos foram desenvolvidos. O conjunto dessas coisas tornou possível a colheita de bons resultados”, afirmou.

Nos Estados Unidos, outros desafios se somaram à experiência: comunicar-se em inglês, adaptar-se a diferentes formas de trabalho e compreender uma nova cultura acadêmica e agrícola. Nebraska integra o chamado Corn Belt, região norte-americana caracterizada pela produção de milho em larga escala, o que permitiu ao estudante observar sistemas produtivos diferentes daqueles com os quais tinha contato no Brasil.

“Gostei muito de conhecer outra cultura, outras formas de desenvolver a agricultura no Corn Belt e de perceber como a entomologia agrícola é importante em diferentes partes do mundo. Essa experiência trouxe novas ideias que podem ser desenvolvidas no Brasil e me tornou mais maduro profissionalmente”, avaliou.

Iago já iniciou o mestrado na área de Manejo Integrado de Pragas, dando continuidade à formação em Entomologia. Embora não pretenda prosseguir com estudos sobre a Meromyza americana, por não se tratar de uma praga de ocorrência na região onde atualmente desenvolve suas atividades, a experiência em Nebraska ajudou a definir o campo de pesquisa que pretende seguir.

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