João Pessoa, sábado, 31 de outubro de 2026
Paraibanos no comando do BB e da Caixa: o que fortalece e o que ameaça a permanência de Tarciana e Carlos Vieira
30/10/2026 14:38
Redação ON Reprodução

Dois paraibanos à frente dos principais bancos públicos do país estão no centro das discussões sobre possíveis mudanças na equipe do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Tarciana Medeiros, presidente do Banco do Brasil, e Carlos Vieira, presidente da Caixa Econômica Federal, enfrentam pressões relacionadas aos resultados das instituições e às articulações políticas para a composição do próximo governo. A permanência dos dois está em avaliação, segundo reportagem do Estadão.

A presença dos gestores paraibanos nesses postos dá ao debate uma importância particular para o Estado. Ambos ocupam posições estratégicas na economia nacional, com influência sobre o crédito rural, o financiamento habitacional e a execução de políticas públicas. Mas o peso dessas responsabilidades também amplia a cobrança sobre suas gestões.

Não há, no material publicado, anúncio de demissão de nenhum dos dois. Há, porém, sinais de desgaste e movimentações que colocam o comando dos bancos na pauta das mudanças a partir de janeiro.

Tarciana: proximidade com Janja e resistência às pressões políticas

Primeira mulher a presidir o Banco do Brasil, Tarciana foi escolhida no início do terceiro mandato de Lula e permaneceu no cargo mesmo diante de tentativas de lideranças do Centrão de emplacar um substituto.

Considerada próxima à primeira-dama Rosângela Lula da Silva, a Janja, a paraibana tem nessa relação um elemento de força política. Sua permanência ao longo do mandato também demonstra que conseguiu resistir às disputas pelo comando de uma das instituições mais cobiçadas do governo.

O principal fator de desgaste, entretanto, está nos resultados. Segundo os números apresentados pelo Estadão, o lucro do BB caiu 45,4% em 2025, em relação ao ano anterior, ficando em R$ 20,7 bilhões. No primeiro semestre deste ano, somou R$ 7,3 bilhões, redução de 34% na comparação com igual período de 2025.

A queda atingiu a participação nos lucros e resultados dos funcionários, provocando insatisfação interna, de acordo com interlocutores ouvidos pela reportagem.

Outro ponto de pressão é o aumento da inadimplência no agronegócio, a maior carteira do banco. Juros elevados e oscilações nos preços das commodities dificultaram o pagamento dos financiamentos pelos produtores. Embora o problema afete outras instituições, fontes do mercado ouvidas pelo Estadão também atribuem parte das dificuldades do BB a falhas na gestão de risco.

Tarciana ainda teria sido cobrada por Lula e pelo ministro Guilherme Boulos, durante a campanha eleitoral, pelo baixo desembolso nas linhas do Move Brasil destinadas a motoristas de aplicativo.

A renúncia da vice-presidente de Negócios de Varejo, Carla Nesi, na quarta-feira (28), foi interpretada internamente como um sinal de possíveis mudanças. Entre os nomes mencionados para uma eventual sucessão está Dario Durigan, da Fazenda. Trata-se, contudo, de um cenário em discussão, sem definição anunciada.

Vieira: relação com Lula e força da habitação pesam a favor

Na Caixa, Carlos Vieira tem como trunfos a boa relação construída com Lula e a atuação do banco no financiamento habitacional, uma das principais vitrines sociais do governo.

Funcionário de carreira da instituição e ex-presidente da Funcef, Vieira assumiu em outubro de 2023, substituindo Maria Rita Serrano. Sua indicação teve o apoio do então presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL).

Sob sua gestão, a carteira de financiamento imobiliário da Caixa superou R$ 1 trilhão. O banco também mantém posição central no Minha Casa, Minha Vida. Essa presença em uma área politicamente relevante ajuda a sustentar o gestor paraibano.

Em contrapartida, a Caixa é tradicionalmente disputada por partidos da base aliada. Sua capilaridade e participação nos programas sociais fazem do comando da instituição uma peça importante nas negociações políticas. Segundo o Estadão, a tendência é de substituição de Vieira no processo de reacomodação da base.

Os resultados financeiros também pesam. No primeiro semestre deste ano, o lucro líquido foi de R$ 7,4 bilhões, queda de 17,6% em relação ao mesmo período do ano anterior. Na carteira de crédito rural, a inadimplência passou de 7,02% no segundo trimestre de 2025 para 20,74% no mesmo período deste ano.

Houve ainda um episódio de atrito com Lula: o anúncio, em outubro de 2025, de que a Caixa lançaria uma plataforma de apostas. Segundo a reportagem, o presidente se irritou com a informação e cobrou uma conversa com Vieira. Os planos foram paralisados.

O desgaste não levou à demissão do dirigente, que preservou a relação com o presidente. Agora, porém, sua continuidade depende também do espaço que a Caixa ocupará nas negociações do governo com os aliados.

Petrobras integra o histórico de mudanças

As discussões sobre os bancos ocorrem em um governo que já promoveu alterações no comando de grandes estatais. Na Petrobras, Lula iniciou o mandato com o ex-senador Jean Paul Prates e depois o substituiu por Magda Chambriard. Na Caixa, trocou Maria Rita Serrano por Vieira. Entre as três instituições, apenas o Banco do Brasil manteve a mesma presidente desde o início do mandato.

Para os dois gestores paraibanos, o cenário combina sustentação política e cobrança por desempenho. Tarciana conta com a proximidade com Janja e com a resistência demonstrada às pressões do Centrão, mas enfrenta o desgaste dos resultados do BB. Vieira tem a relação com Lula e o peso da política habitacional a seu favor, enquanto a disputa pelo comando da Caixa e a queda do lucro tornam sua permanência mais incerta

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