João Pessoa, quarta-feira, 21 de outubro de 2026
Obesidade infantil no Brasil cresce mais de dez vezes em quatro décadas e acende alerta para riscos metabólicos
21/10/2026 19:41
Redação ON Reprodução

A prevalência de obesidade entre crianças e adolescentes brasileiros de 5 a 19 anos passou de 1,6%, em 1980, para 17,4%, em 2024, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS). O crescimento de mais de dez vezes em quatro décadas revela um problema que vai além do peso corporal. A obesidade pode estar associada, ainda na infância, a alterações metabólicas como hipertensão, níveis elevados de glicose, colesterol e acúmulo de gordura no fígado. Diante desse cenário, especialistas alertam que a prevenção precisa começar cedo, mas sem transformar a alimentação e o corpo das crianças em motivos de culpa ou preocupação excessiva.

A dimensão do problema também aparece no Atlas Mundial da Obesidade 2026, publicado pela Federação Mundial da Obesidade. Segundo o relatório, aproximadamente 16,5 milhões de brasileiros de 5 a 19 anos apresentavam sobrepeso ou obesidade em 2025. O documento estima ainda que cerca de 4 milhões de crianças e adolescentes nessa faixa etária apresentavam doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica atribuída ao índice de massa corporal (IMC) elevado, enquanto 1,4 milhão apresentava hipertensão associada ao mesmo fator.

Esses números são estimativas populacionais, não diagnósticos individuais, e ajudam a dimensionar as possíveis repercussões do excesso de peso sobre a saúde infantil. Para a endocrinologista Paula Fábrega, do Hospital Sírio-Libanês, em Brasília, a prevenção exige uma abordagem ampla, que considere não apenas a alimentação, mas também fatores genéticos, ambientais, comportamentais e socioeconômicos.

“Prevenir e tratar precocemente a obesidade infantil não significa colocar a criança em uma dieta restritiva ou fazê-la se preocupar com o peso. Significa criar, em família, um ambiente que favoreça uma alimentação equilibrada, movimento, sono adequado e uma relação saudável com o próprio corpo e com a comida”, orienta a especialista.

O problema não está apenas na sobremesa

A influência da alimentação sobre o excesso de peso infantil tem sido investigada por pesquisas científicas que analisam não apenas a quantidade consumida, mas também a composição dos alimentos e os padrões alimentares.

Uma revisão sistemática e metanálise publicada em 2026, que reuniu 23 estudos com aproximadamente 155 mil adolescentes, identificou uma associação entre o maior consumo de alimentos ultraprocessados e o excesso de peso. Na comparação entre os grupos de maior e menor consumo, os pesquisadores observaram uma chance 63% maior de sobrepeso ou obesidade entre os adolescentes com maior ingestão desses produtos.

Os resultados não significam que o consumo de um alimento isolado determine a obesidade. Por se tratar de uma análise de estudos observacionais, a pesquisa também não estabelece uma relação direta de causa e efeito. O achado reforça, porém, a necessidade de observar o padrão alimentar ao longo do tempo.

Nesse contexto, a prevenção não deve se limitar à retirada de doces ou à proibição de determinados alimentos. Uma festa de aniversário, um chocolate ou uma sobremesa especial não determinam, isoladamente, o peso de uma criança. O que merece atenção é a frequência do consumo, a qualidade da alimentação cotidiana e o ambiente em que as escolhas acontecem.

“Doces e outros alimentos não precisam ser tratados como proibidos, mas devem fazer parte de uma alimentação equilibrada e não ser utilizados como recompensa por bom comportamento”, explica Paula.

A orientação é priorizar alimentos in natura ou minimamente processados, como frutas, verduras, legumes, feijão, ovos e carnes, e evitar que produtos ultraprocessados ocupem o lugar das refeições habituais. A participação dos adultos nesse processo contribui para que as mudanças não sejam percebidas como uma punição dirigida exclusivamente à criança.

O cuidado com a obesidade infantil também envolve outros fatores. O Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC) destaca que padrões de sono, atividade física, fatores genéticos e condições do ambiente familiar influenciam o desenvolvimento da obesidade. Segundo a instituição, crianças com obesidade apresentam maior risco de problemas como apneia do sono, hipertensão arterial, diabetes tipo 2 e alterações osteoarticulares.

Para crianças e adolescentes de 5 a 17 anos, a OMS recomenda uma média de pelo menos 60 minutos diários de atividade física moderada a vigorosa ao longo da semana. Isso não significa necessariamente praticar esportes competitivos ou frequentar academias. Brincar ao ar livre, andar de bicicleta, dançar, pular corda e jogar bola são formas de incorporar movimento ao cotidiano.

Outro fator relevante é o sono. Manter horários regulares para dormir, reduzir o tempo sedentário e criar oportunidades para atividades físicas são medidas que podem contribuir para uma rotina mais saudável.

“Crianças aprendem muito mais observando os adultos do que ouvindo orientações. Por isso, mudanças que envolvem toda a família costumam ser mais sustentáveis”, afirma Paula Fábrega.

Quando o excesso de peso exige acompanhamento médico?

A identificação da obesidade infantil não deve ser feita apenas pela aparência ou pelo número indicado na balança. Diferentemente dos adultos, a avaliação do IMC em crianças e adolescentes considera idade e sexo, além da evolução do crescimento e do desenvolvimento.

O acompanhamento pediátrico permite avaliar a trajetória de crescimento, os hábitos de vida, o histórico familiar e a necessidade de investigar possíveis alterações metabólicas. Quando indicado, o cuidado pode envolver diferentes especialidades, incluindo endocrinologia, nutrição e acompanhamento psicológico.

A abordagem também precisa evitar comentários depreciativos sobre o corpo. O estigma relacionado ao peso pode contribuir para sofrimento emocional, isolamento social e dificuldades na relação com a alimentação.

“O objetivo é ensinar a criança a cuidar de si, e não fazê-la sentir vergonha do próprio corpo”, afirma Paula. Para a especialista, o cuidado deve ser construído com orientações adequadas à idade e à realidade de cada família, sem soluções rápidas ou restrições alimentares estabelecidas sem avaliação profissional.“A melhor prevenção começa com pequenas escolhas feitas todos os dias”, conclui Paula Fábrega.

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