João Pessoa, quinta-feira, 5 de novembro de 2026
Novembro Azul: 10 coisas que todo mundo precisa saber sobre o câncer de próstata
05/11/2026 06:59
Redação ON Reprodução

O câncer de próstata deverá atingir 77.920 homens por ano no Brasil entre 2026 e 2028, segundo estimativas do Instituto Nacional de Câncer (INCA). Isso representa aproximadamente 233,8 mil novos casos no triênio. Durante o Novembro Azul, campanha dedicada à conscientização sobre a saúde masculina, a Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO) reúne dez informações que todo homem precisa conhecer sobre a doença, desde os fatores de risco e os exames utilizados na investigação até as diferentes possibilidades de tratamento, incluindo situações em que a intervenção imediata não é necessária.

De acordo com o cirurgião oncológico Paulo Henrique Fernandes, presidente da SBCO, o câncer de próstata apresenta elevadas taxas de sobrevida quando identificado antes de se espalhar para outros órgãos. Dados do programa norte-americano SEER, do National Cancer Institute, mostram que a sobrevida relativa em cinco anos chega a 100% entre pacientes com doença localizada, enquanto cai para 40,1% quando há metástases. “Ainda há um grande tabu sobre o autocuidado masculino, especialmente quando os homens não apresentam sintomas. No entanto, a ausência de sinais não significa que a doença não possa estar presente. Por isso, é importante conversar com o médico sobre os fatores de risco, o histórico familiar e a necessidade de investigação individualizada. Quanto mais informação os homens tiverem sobre a doença, maiores serão as possibilidades de identificá-la oportunamente e escolher a melhor abordagem”, afirma.

Confira as dez informações sobre o câncer de próstata que merecem a atenção dos homens.

  1. O risco de câncer de próstata aumenta com a idade

O envelhecimento é um dos principais fatores de risco para o câncer de próstata. A tem maior ocorrência após os 50 anos e tanto a incidência quanto a mortalidade aumentam com o avanço da idade. Segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), o Brasil deverá registrar 77.920 novos casos anuais entre 2026 e 2028, o equivalente a aproximadamente 233.760 diagnósticos no período. O câncer de próstata representa 30,5% dos novos casos de câncer estimados entre os homens brasileiros, quando excluídos os tumores de pele não melanoma.

Além da idade, o histórico familiar também deve servir de alerta. Homens cujo pai ou irmão recebeu diagnóstico de câncer de próstata, especialmente antes dos 60 anos, podem apresentar maior risco de desenvolver a doença. Alterações genéticas hereditárias, como mutações nos genes BRCA1 e BRCA2, também podem aumentar essa predisposição. Famílias com histórico de câncer de mama, ovário, pâncreas e próstata podem compartilhar alterações genéticas associadas ao desenvolvimento desses tumores.

“Outro fator importante é a maior incidência da doença entre homens negros, que também apresentam maior mortalidade por câncer de próstata. O tabagismo merece atenção por sua associação com piores desfechos após o diagnóstico. Já o sedentarismo e o consumo de bebidas alcoólicas não são considerados fatores de risco estabelecidos para o desenvolvimento desse tumor, embora manter hábitos saudáveis seja importante para a saúde geral”, explica  Jayme Quirino Caon Nobre, coordenador da Comissão de Neoplasias do Trato Urinário da SBCO.

  1. Quando começar a conversar com o médico sobre o câncer de próstata?

A decisão de realizar exames para investigar o câncer de próstata deve considerar a idade, o histórico familiar, as condições de saúde e os fatores individuais de risco. Há diferenças entre as recomendações das sociedades médicas e as diretrizes do Ministério da Saúde e do Instituto Nacional de Câncer (INCA). Enquanto sociedades médicas recomendam discutir a realização dos exames, em geral, a partir dos 50 anos para homens com risco habitual, podendo antecipar essa avaliação para os 45 ou 40 anos em situações de maior risco, o Ministério da Saúde e o INCA não recomendam o rastreamento populacional de rotina em homens sem sintomas, considerando as incertezas sobre os benefícios e os possíveis danos associados à investigação.

Homens negros e aqueles com histórico familiar de câncer de próstata, especialmente em parentes de primeiro grau, merecem atenção particular. Nesses casos, a discussão sobre os exames pode começar mais cedo, conforme avaliação médica individualizada. Entre os exames que podem ser considerados estão a dosagem do PSA (antígeno prostático específico), realizada por meio de coleta de sangue, e o toque retal. A decisão deve ser compartilhada entre médico e paciente, levando em conta os possíveis benefícios da detecção precoce e os riscos de resultados falso-positivos, exames invasivos, identificação de tumores que não causariam problemas ao longo da vida e tratamentos desnecessários.

“Os homens precisam incorporar o acompanhamento médico à rotina de cuidados com a saúde, mesmo quando não apresentam sintomas. A decisão sobre quando iniciar os exames e com que frequência os realizar deve ser individualizada e compartilhada com o médico, considerando os benefícios e os possíveis riscos da investigação”, explica Fernandes.

  1. PSA e toque retal avaliam características diferentes da próstata

O PSA é uma proteína produzida pela próstata e medida por exame de sangue. Sua concentração pode aumentar na presença de câncer, mas também em situações benignas, como o crescimento da glândula, conhecido como hiperplasia prostática benigna, ou processos inflamatórios. Por isso, um resultado elevado não confirma, isoladamente, o diagnóstico de câncer.

O toque retal, por sua vez, é realizado pelo médico durante a consulta e permite avaliar características da próstata, como tamanho, consistência e presença de nódulos ou áreas endurecidas. Os dois exames fornecem informações diferentes e podem ser utilizados de forma complementar, conforme a avaliação clínica.

Quando os resultados levantam suspeitas, o médico pode solicitar exames adicionais, como a ressonância magnética multiparamétrica da próstata. A confirmação do câncer geralmente depende da biópsia, procedimento que permite coletar pequenos fragmentos do tecido prostático para análise.

“A frequência dos exames depende dos resultados anteriores, do histórico familiar e das características clínicas de cada paciente. Tanto o PSA quanto o toque retal são procedimentos rápidos. O importante é que o receio dos exames não impeça o homem de procurar orientação médica”, acrescenta Fernandes.

  1. Alterações urinárias devem ser investigadas, mesmo quando parecem benignas

O câncer de próstata geralmente não provoca sintomas em suas fases iniciais. À medida que a doença evolui, alguns pacientes podem apresentar dificuldade para começar a urinar, enfraquecimento do jato urinário, sensação de esvaziamento incompleto da bexiga ou necessidade de urinar com maior frequência, inclusive durante a noite.

Essas manifestações, entretanto, são muito mais frequentemente associadas a condições benignas, como o aumento da próstata, e não significam necessariamente a presença de câncer. Ainda assim, merecem avaliação médica, especialmente quando persistem ou se intensificam. A presença de sangue na urina também exige investigação, pois pode estar relacionada a outras doenças do sistema urinário, incluindo tumores de bexiga.

Em situações mais avançadas, o câncer de próstata pode provocar dor óssea persistente, principalmente quando há disseminação para os ossos. A ausência de sintomas, por outro lado, não exclui a possibilidade da doença. Por isso, a investigação não deve depender exclusivamente do aparecimento de alterações urinárias.

  1. O câncer de próstata também pode atingir homens com menos de 50 anos

Embora seja mais frequente em homens mais velhos, o câncer de próstata também pode surgir antes dos 50 anos. Um levantamento da Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO), realizado com base em dados do Painel Oncologia do DataSUS, identificou 9.352 diagnósticos em homens com menos de 60 anos registrados no Sistema Único de Saúde (SUS) em 2024 e 2025. Desse total, 940 ocorreram antes dos 50 anos.

A análise também identificou uma proporção expressiva de doença metastática entre os pacientes mais jovens que tinham informações disponíveis sobre o estágio do tumor. Na faixa de 40 a 44 anos, 30 dos 55 homens com estadiamento conhecido (54,5%) apresentavam metástases no momento do diagnóstico. Entre aqueles de 45 a 49 anos, a doença já havia se espalhado para outros órgãos em 114 dos 259 casos com essa informação disponível (44%).

Os resultados mostram que, embora menos comum entre adultos jovens, a doença também pode apresentar comportamento avançado nessa população. Os percentuais, entretanto, referem-se apenas aos pacientes com estadiamento informado no sistema e não representam necessariamente todos os homens diagnosticados nessas faixas etárias.

  1. O diagnóstico em fases iniciais amplia as possibilidades de tratamento curativo

Identificar o câncer de próstata antes de sua disseminação para outros órgãos amplia as possibilidades de tratamento com intenção curativa. Dependendo das características do tumor, também pode permitir abordagens menos intensivas ou o acompanhamento sem intervenção imediata, reduzindo o risco de efeitos adversos desnecessários.

Dados do programa SEER, vinculado ao National Cancer Institute dos Estados Unidos, mostram que 69% dos casos de câncer de próstata são diagnosticados quando a doença ainda está localizada. Nesse grupo, a sobrevida relativa em cinco anos é de 100%. Quando o câncer apresenta metástases à distância, esse percentual cai para 40,1%.

A sobrevida relativa compara a sobrevivência dos pacientes com câncer à esperada para pessoas da população geral com características semelhantes. Portanto, o percentual de 100% não significa garantia individual de cura, mas demonstra o prognóstico favorável observado entre os pacientes com doença localizada. A diferença entre os resultados reforça a importância de avaliar os fatores de risco e discutir com o médico os benefícios e as limitações dos exames de detecção precoce.

  1. Cirurgia, radioterapia e tratamentos medicamentosos podem ser utilizados isoladamente ou em combinação

O tratamento do câncer de próstata depende de fatores como a extensão da doença, a agressividade do tumor, os níveis de PSA, a idade, as condições clínicas e as preferências do paciente. Entre as principais opções estão a cirurgia, a radioterapia, a terapia hormonal e os medicamentos utilizados nos casos mais avançados.

A cirurgia, chamada prostatectomia radical, consiste na retirada da próstata e, em determinadas situações, de estruturas próximas e linfonodos. Pode ser realizada por técnica aberta, laparoscópica ou assistida por robô. A radioterapia utiliza radiação para destruir as células tumorais e pode ser indicada como tratamento principal, após a cirurgia ou em situações de recorrência da doença.

Nos tumores localizados, cirurgia e radioterapia são alternativas com intenção curativa, enquanto alguns pacientes com doença de baixo risco podem ser acompanhados por vigilância ativa. Nos casos de maior risco ou localmente avançados, a radioterapia frequentemente é associada à terapia hormonal, que reduz a ação da testosterona sobre as células cancerígenas. A cirurgia também pode integrar estratégias de tratamento selecionadas, eventualmente acompanhada de terapias adicionais.

Quando o câncer já apresenta metástases, o tratamento costuma ser sistêmico, ou seja, utiliza medicamentos que atuam em diferentes regiões do organismo. A terapia de privação androgênica, que reduz os níveis ou a ação dos hormônios masculinos, constitui uma das bases do tratamento e geralmente é combinada com medicamentos hormonais de nova geração e, em situações específicas, quimioterapia. A radioterapia também pode ser utilizada para controlar sintomas ou tratar determinados focos da doença.

  1. Cirurgia robótica para câncer de próstata foi incorporada ao SUS

A prostatectomia radical assistida por robô foi incorporada ao Sistema Único de Saúde (SUS) por meio da Portaria SECTICS/MS nº 72/2025, publicada em outubro de 2025. A decisão contempla pacientes com câncer de próstata clinicamente localizado ou localmente avançado e representa um avanço na ampliação das opções de tratamento cirúrgico na rede pública. A Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO) apoiou a incorporação dessa tecnologia, reconhecendo sua importância para a modernização da assistência oncológica no país.

Na cirurgia robótica, o médico controla instrumentos articulados por meio de um console, com visualização ampliada e tridimensional do campo operatório. A tecnologia permite movimentos precisos e a realização do procedimento por pequenas incisões, características que podem favorecer a recuperação pós-operatória.

Em comparação com a cirurgia aberta, a abordagem robótica pode proporcionar menor perda de sangue, menor tempo de internação e recuperação mais rápida. Os resultados relacionados à continência urinária e à função sexual, entretanto, dependem de diversos fatores, incluindo as características do paciente, a extensão do tumor e a experiência da equipe cirúrgica. Não há garantia de superioridade da técnica robótica em todos esses desfechos.

A incorporação ao SUS não significa disponibilidade imediata em todas as unidades. A oferta depende da organização dos serviços, da existência de equipamentos e da capacitação das equipes responsáveis pelos procedimentos.

  1. Nem todo câncer de próstata precisa de tratamento imediato

Receber o diagnóstico de câncer de próstata não significa, necessariamente, que o paciente precisará passar imediatamente por cirurgia ou radioterapia. Em determinadas situações, especialmente quando o tumor apresenta baixo risco de progressão, a vigilância ativa pode ser a opção mais adequada.

Essa estratégia consiste em acompanhar a evolução do câncer por meio de consultas periódicas, exames de PSA, ressonância magnética e, quando necessário, novas biópsias. O objetivo é identificar eventuais sinais de progressão e iniciar o tratamento curativo no momento apropriado, evitando intervenções que poderiam ser desnecessárias em tumores de crescimento lento.

A vigilância ativa não significa abandonar o tratamento ou simplesmente esperar pelo aparecimento de sintomas. Trata-se de uma conduta médica estruturada, com critérios definidos e acompanhamento regular. A indicação considera fatores como a agressividade das células tumorais identificadas na biópsia, a quantidade de tecido comprometido, o PSA e os resultados dos exames de imagem.

Essa abordagem também é diferente da observação clínica, ou espera vigilante, geralmente adotada em pacientes com expectativa de vida limitada ou outras condições de saúde importantes, quando o objetivo principal é controlar sintomas caso eles apareçam. A principal vantagem da vigilância ativa é evitar ou adiar possíveis efeitos adversos da cirurgia e da radioterapia, como incontinência urinária e disfunção erétil, sem comprometer desnecessariamente as possibilidades de tratamento curativo nos pacientes adequadamente selecionados.

  1. Preservar a função urinária e sexual também faz parte do tratamento

Além de controlar o câncer, o planejamento terapêutico deve considerar possíveis repercussões sobre a qualidade de vida. A próstata está localizada próxima a estruturas envolvidas no controle da urina e na função sexual, o que explica por que alguns tratamentos podem provocar alterações nessas áreas.

Após a prostatectomia radical, alguns pacientes podem apresentar perda involuntária de urina, especialmente nos primeiros meses de recuperação, ou dificuldade para obter e manter a ereção. A intensidade e a duração dessas alterações variam conforme a idade, as condições de saúde anteriores, a extensão da cirurgia e a possibilidade de preservação dos nervos responsáveis pela ereção.

A radioterapia também pode provocar efeitos urinários, intestinais e sexuais, que podem surgir durante o tratamento ou posteriormente. Já a terapia hormonal pode causar redução da libido, alterações da função erétil, ondas de calor, perda de massa muscular e mudanças metabólicas.

Existem estratégias para prevenir, reduzir ou tratar parte dessas complicações, incluindo reabilitação do assoalho pélvico, medicamentos e acompanhamento especializado. Por isso, a discussão sobre os possíveis efeitos adversos deve ocorrer antes da definição da conduta.

A escolha do tratamento precisa equilibrar as possibilidades de controle da doença com seus impactos sobre a rotina, a sexualidade e a qualidade de vida. O paciente deve participar dessa decisão, compreendendo os benefícios e as limitações de cada alternativa.

Sobre a SBCO – Fundada em 31 de maio de 1988, a Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO) é uma entidade sem fins lucrativos, com personalidade jurídica própria, que agrega cirurgiões oncológicos e outros profissionais envolvidos no cuidado multidisciplinar ao paciente com câncer. Sua missão é também promover educação médica continuada, com intercâmbio de conhecimentos, que promovam a prevenção, detecção precoce e o melhor tratamento possível aos pacientes, fortalecendo e representando a cirurgia oncológica brasileira. É presidida pelo cirurgião oncológico Paulo Henrique de Sousa Fernandes (2025-2027).

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