Longa de André Morais representa a nova geração do audiovisual nordestino e será exibido também na mostra paraibana Fest Aruanda Praia, em João Pessoa
A 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo reafirma, mais uma vez, sua vocação para revelar a força e a diversidade do cinema brasileiro contemporâneo. Entre os grandes destaques da programação, surge o filme “Malaika”, dirigido pelo paraibano André Morais, que chega à capital paulista como um dos representantes mais sensíveis e autorais da nova safra nordestina.
Um olhar poético e político sobre identidade
“Malaika” conta a história de uma jovem albina que vive sob a sombra do preconceito e do isolamento. A protagonista enfrenta o sol como uma ameaça, mas é dentro de casa — e no espelho — que trava suas maiores batalhas. Ao lado da mãe, uma mulher negra empregada doméstica de uma família burguesa, a menina tenta se reconciliar com sua própria imagem e descobrir um sentido de pertencimento.
O filme, de estética delicada e roteiro simbólico, foi selecionado para a competição Novos Diretores da Mostra de São Paulo — uma das vitrines mais importantes do cinema independente latino-americano. É uma conquista que projeta o audiovisual paraibano em um circuito internacional de prestígio.
A Mostra e seus múltiplos olhares
O festival paulistano, que acontece entre os dias 16 e 30 de outubro, reúne produções que vão do realismo social ao terror contemporâneo. Entre os destaques estão “Assalto à Brasileira”, de José Eduardo Belmonte, baseado em um caso policial real, o documentário “Copinha”, sobre a jornada de jovens jogadores do Amapá, e “Love Kills”, da diretora Luiza Shelling Tubaldini, que aposta em uma linguagem híbrida entre o cinema de gênero e o drama psicológico.
Atrizes consagradas também assinam novos trabalhos como diretoras — caso de Leandra Leal, com o documentário “Nada a Fazer”, e Gloria Pires, que dirige a ficção “Sexa”. O resultado é uma Mostra eclética, onde o cinema brasileiro se revela em suas contradições e potências.
Do circuito paulista à tela paraibana
Depois da exibição em São Paulo, “Malaika” também será apresentado em João Pessoa, dentro da programação do Fest Aruanda Praia, versão comemorativa dos 20 anos do tradicional Festival Aruanda do Audiovisual Brasileiro.
O evento, promovido pela Bolandeira Arte & Films, acontecerá entre 3 e 10 de dezembro, com dois dias dedicados a sessões e shows na Praia de Tambaú. O festival conta com patrocínio do Governo da Paraíba, por meio da Secult-PB, Cagepa, Funesc e Grupo Energisa, além de apoio da UFPB e do Ministério da Cultura.
A presença de “Malaika” nas duas mostras — uma nacional e outra regional — simboliza a crescente projeção do cinema paraibano no cenário brasileiro, que vem conquistando espaço com narrativas próprias e linguagem autoral.
Entre a capital e o litoral, o cinema se encontra
Mais do que uma coincidência de agenda, a trajetória de “Malaika” entre São Paulo e João Pessoa representa um ponto de convergência entre o centro e a periferia cultural do país. O filme reafirma que o audiovisual nordestino deixou de ser coadjuvante e agora ocupa lugar de fala, de invenção e de resistência.
Para os paraibanos, a conquista é também motivo de orgulho: um sinal de que o cinema feito aqui continua abrindo janelas e iluminando caminhos — mesmo para quem, como Malaika, nasceu para viver à sombra do sol.