O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), assumiu um papel central e controverso na tentativa de sustar a ação penal contra o deputado Alexandre Ramagem (PL-RJ) — e, por tabela, favorecer Jair Bolsonaro e outros investigados por suposta tentativa de golpe de Estado.
Motta foi além do protocolo. Ao receber o parecer do deputado Alfredo Gaspar (União-AL), que defende o trancamento completo do processo em curso no STF, o paraibano acelerou a tramitação para levar ao plenário, impediu a apresentação de emendas e vetou requerimentos de adiamento ou retirada de pauta. Com isso, blindou a votação de qualquer possibilidade de mudança, mesmo diante de alertas de inconstitucionalidade vindos do próprio Supremo.
Segundo interlocutores, a decisão de Hugo Motta teve duas motivações principais. A primeira, uma resposta direta ao STF, especialmente ao ministro Cristiano Zanin, que enviou ofício à Câmara reafirmando que a suspensão de ações penais só se aplica a crimes cometidos após a diplomação e exclusivamente em relação ao parlamentar envolvido. Motta teria interpretado o gesto como uma tentativa de interferência indevida e reagido com a força das “prerrogativas do Parlamento”.
A segunda motivação, de ordem política, foi interpretada como um aceno à oposição bolsonarista. Com o desgaste causado por sua recusa em pautar o projeto de anistia aos envolvidos nos atos de 8 de janeiro, Motta compensou o setor mais radical da Casa com a votação do pedido de suspensão da ação penal contra Ramagem — o delegado e deputado aliado de Bolsonaro.
Mesmo com essa movimentação intensa, a ação articulada por Motta tende a esbarrar no Supremo. Ministros da Corte consideram inconstitucional a tentativa de trancar processos anteriores à diplomação de parlamentares ou que envolvam outros réus fora do Congresso. O próprio Zanin já afirmou que só poderiam ser suspensas acusações ligadas aos atos de 8 de janeiro — e apenas no caso de Ramagem, não de Bolsonaro ou demais investigados.
Apesar de sua gravidade institucional, a manobra de Motta e Gaspar foi tratada com relativa indiferença pelos grandes veículos de imprensa. Ganhou espaço no noticiário, mas sem o destaque proporcional ao impacto da medida. Um sinal claro de que, nos bastidores, prevalece a leitura de que o STF deve barrar a ofensiva — mais um capítulo do embate entre poderes, marcado por gestos simbólicos, recados indiretos e o reposicionamento político do presidente da Câmara.
Hugo Motta, que até então vinha atuando com perfil mais discreto, coloca-se agora no centro de uma crise institucional com múltiplas camadas. Ao tentar mostrar força diante do Supremo e agradar a base bolsonarista, o deputado paraibano corre o risco de ser lembrado não apenas como presidente da Câmara, mas como protagonista de um impasse constitucional que pode terminar onde começou: no lixo das tentativas de golpe.

