quarta-feira, 6 de maio de 2026
Guerra silenciosa em Brasília coloca Alcolumbre na mira do Planalto
05/05/2026 12:27
Redação ON Reprodução

A política em Brasília raramente se resolve apenas no plenário. O que se vê na superfície costuma ser apenas o reflexo de movimentos muito mais profundos, costurados longe das câmeras. E é justamente nesse terreno invisível que começa a ganhar corpo uma percepção cada vez mais disseminada entre parlamentares: ninguém admite publicamente, mas o Palácio do Planalto estaria preparando uma reação dura contra Davi Alcolumbre.

A sequência de episódios recentes – da articulação que barrou a indicação de Jorge Messias ao movimento seguinte que resultou na derrubada do veto de Luiz Inácio Lula da Silva na lei da dosimetria – segundo o jornalista Lauro Jardim, foi interpretada por aliados do governo como uma afronta direta.

O diagnóstico é simples: Alcolumbre cruzou uma linha. E, em Brasília, isso costuma ter consequências. Interlocutores do governo avaliam que o Executivo dispõe de instrumentos suficientes para reagir, e a leitura predominante entre aliados do senador é que esse “arsenal” inclui não apenas articulação política, mas também o uso estratégico de órgãos de investigação, com destaque para a Polícia Federal. A expressão que mais circula nos corredores do Congresso é “telhado de vidro” – uma referência à possibilidade de exposição de fragilidades políticas ou jurídicas que possam atingir o senador.

E é justamente nesse ponto que entram elementos mais sensíveis, ainda não assumidos oficialmente, mas que ampliam o nível de tensão. O avanço das investigações da Polícia Federal no chamado Caso Master aparece no radar como um fator de pressão. Nesse contexto, os vínculos de Alcolumbre com o episódio passam, por exemplo, pelo aporte de R$ 400 milhões do fundo de previdência do Amapá, o Amprev, que investiu o mesmo valor em letras financeiras do banco ligado ao empresário Daniel Vorcaro. O próprio presidente do Amprev, Jocildo Lemos, já admitiu ter chegado ao cargo por indicação do senador, o que reforça o ambiente de atenção em torno do caso.

Outros poderosos que sucumbiram

Esse tipo de movimento não seria inédito. A memória recente da política brasileira oferece exemplos claros de como figuras extremamente poderosas no Legislativo podem perder sustentação em pouco tempo. O caso mais emblemático é o de Eduardo Cunha. Durante seu auge, Cunha parecia inatingível, controlando pautas e impondo derrotas ao governo. Mas a revelação de contas secretas no exterior, somada à atuação do Supremo Tribunal Federal, levou ao seu afastamento e, posteriormente, à cassação e prisão no âmbito da Lava Jato. O poder acumulado não foi suficiente para resistir à combinação de pressão institucional e perda de apoio político.

Outro exemplo citado com frequência nas conversas reservadas é o de Rodrigo Maia. Diferentemente de Cunha, sua queda não envolveu escândalos criminais, mas um processo de isolamento político progressivo. Ao tentar ampliar seu espaço de poder, Maia acabou enfrentando resistência do Executivo à época e viu sua base ser desmontada por articulações que culminaram na vitória de Arthur Lira. O resultado foi uma saída sem força, marcada pela perda de protagonismo e influência.

É esse histórico que alimenta o clima de tensão atual. Ainda que não haja qualquer movimento oficial declarado contra Alcolumbre, o ambiente político indica que o confronto deixou de ser pontual para se tornar estrutural. Em Brasília, onde gestos têm sempre múltiplos significados, o recado já foi entendido: poder, por mais sólido que pareça, nunca é definitivo – e, muitas vezes, o próximo movimento do jogo acontece longe do tabuleiro visível.

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