Enquanto Campina Grande e Caruaru entram oficialmente, nesta segunda-feira (1º), no calendário do São João 2026, o forró já mostra que ultrapassou há muito tempo os limites do Nordeste. Em meio à expectativa para o início das maiores festas juninas do país, uma reportagem da Deutsche Welle (DW) revelou um fenômeno cada vez mais evidente: o ritmo nordestino vem conquistando espaço em diversos países da Europa, especialmente na Alemanha, onde já existe uma verdadeira cena cultural organizada em torno do gênero.
O que durante décadas foi visto apenas como uma manifestação regional brasileira hoje movimenta festivais internacionais, escolas de dança, workshops e encontros que atraem milhares de estrangeiros interessados em aprender os passos e entender a cultura nordestina. Segundo a reportagem, a Alemanha concentra quase metade dos festivais de forró realizados na Europa. Em 2024, eram cerca de 65 eventos espalhados pelo continente.
Um dos principais responsáveis por essa expansão é o brasileiro Ayo Barbosa, organizador do Miudinho Festival, realizado anualmente em Berlim. O evento reúne aproximadamente mil participantes, e um dado chama atenção: apenas entre 15% e 20% do público é formado por brasileiros. A maioria dos participantes vem da própria Alemanha e de países como França, Inglaterra, Espanha, Portugal e Polônia.
Mais curioso ainda é perceber que o interesse dos europeus não se limita à música. Os festivais funcionam como uma verdadeira imersão cultural. Além das aulas de dança, os participantes têm contato com a gastronomia, a musicalidade e diversos elementos da identidade brasileira, tendo o Nordeste como principal vitrine cultural.
A matéria destaca ainda que um dos primeiros grandes festivais de forró fora do Brasil surgiu justamente na Alemanha. O Forró de Domingo teve sua primeira edição em 2008, na cidade de Stuttgart, ajudando a abrir caminho para dezenas de outros eventos que surgiriam nos anos seguintes.
Outro aspecto que chama atenção é a forma como os estrangeiros enxergam o forró. Muitos relatam que a dança tem uma característica inclusiva e espontânea, diferente de modalidades mais rígidas e coreografadas. A ideia de improvisação, acolhimento e interação social aparece frequentemente nos depoimentos de alunos europeus que passaram a frequentar as aulas.
A definição mais simbólica talvez venha do próprio Ayo Barbosa. Segundo ele, o forró funciona como uma “porta aberta”, um ambiente onde sempre cabe mais alguém. Talvez esteja justamente aí uma das explicações para o sucesso do ritmo fora do Brasil.
Enquanto sanfonas, zabumbas e triângulos começam a ecoar oficialmente pelos parques do povo e pelos arraiais nordestinos, a notícia que chega da Europa serve como um lembrete poderoso: aquilo que nasceu nos terreiros, feiras e festas populares do Nordeste já se transformou em patrimônio afetivo de gente espalhada por vários continentes.
E se o São João continua tendo seu coração em Campina Grande e Caruaru, o forró já aprendeu a dançar em vários idiomas.