Flávio Bolsonaro (PL) voltou a explorar acusações envolvendo o filho do presidente Lula (PT) na reta final da eleição. O candidato divulgou nas redes sociais trechos da entrevista de Roberta Luchsinger à CNN Brasil, exibida neste sábado (17), e promoveu a expressão “Fala tudo, Roberta”. A movimentação recoloca no debate um assunto que já havia provocado desgaste antes do primeiro turno, agora acompanhado de novas declarações da empresária.
A ofensiva ocorre quando pesquisas mostram redução da vantagem de Flávio. No Ipespe/Abrapel divulgado no sábado, a distância nos votos válidos caiu de 5,4 para 2,4 pontos percentuais: o candidato do PL passou de 52,7% para 51,2%, enquanto Lula avançou de 47,3% para 48,8%. A margem de erro é de 2,6 pontos. Não há, porém, comprovação de que a campanha bolsonarista tenha articulado a entrevista.
Investigada por suspeita de tráfico de influência, Roberta afirmou que Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, mantinha encontros frequentes com ministros. Citou uma viagem à casa de Camilo Santana, no Ceará, e contestou declarações do presidente sobre as relações do filho com integrantes do governo. A assessoria de Camilo negou que ele tenha tratado com Lulinha de assuntos de governo ou negócios.
Embora tenha levantado suspeitas, a empresária não apresentou na entrevista documentos que demonstrassem favorecimento nos episódios narrados. Em momentos importantes, reconheceu desconhecer o conteúdo das conversas. Sobre uma eventual discussão de canabidiol entre Lulinha e ministros diante dela, respondeu: “Na minha presença, não”. Também negou manter atuação profissional com o filho do presidente.
A construtora e os R$ 2 bilhões
Uma das declarações de maior repercussão envolveu a ECB — Empresa Construtora Brasil, do grupo português Mota-Engil. Roberta associou contratos que, segundo ela, somariam R$ 2 bilhões à proximidade entre Lulinha e Amauri Rodrigues Pinha, apresentado como amigo e vizinho dele e dirigente da empresa. A CNN informou que a ECB firmou contrato com a Petrobras para intervenções na Refinaria Duque de Caxias.
Roberta disse que o empresário e Lulinha se reuniram em sua casa, em Brasília. Questionada sobre o que conversavam, admitiu não saber, porque os encontros aconteciam a portas fechadas e ela não participava. Seu relato, portanto, não demonstrou uma ligação entre aquelas reuniões e eventual favorecimento na contratação da construtora.
A empresária também afirmou que integrantes do governo lhe pediam ajuda para conseguir agendas com Lula ou prioridade para projetos. Citou Leonardo Barchini, da Educação, Frederico de Siqueira Filho, das Comunicações, e antigos auxiliares do governo. O MEC negou tratativas com ela ou Lulinha. O Ministério das Comunicações negou intermediação de agendas e afirmou que ambos nunca estiveram na pasta.
Pagamentos, promessa de delação e respostas
Outro ponto foi a admissão de ajuda financeira ao ex-chefe de gabinete presidencial Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como Marcola. Roberta atribuiu os pagamentos à amizade e negou contrapartidas. A defesa do ex-assessor sustenta que os valores eram empréstimos posteriormente quitados e que ele nunca utilizou o cargo para atender a interesses privados. A finalidade desses pagamentos é uma das questões sob investigação.
Roberta anunciou ainda que pretende negociar uma colaboração premiada e afirmou que não pouparia Lula nem Lulinha. Disse poder acrescentar informações sobre situações não registradas em mensagens de WhatsApp, mas não anunciou acordo firmado ou homologado. A promessa de delação ganhou repercussão política antes da apresentação pública desses elementos adicionais.
Em resposta, Lula negou conhecimento das tratativas e interlocução com a empresária, ressaltou que não existe contrato do governo federal com ela e questionou a divulgação das acusações às vésperas do segundo turno. A defesa de Lulinha negou irregularidades, afirmou que suas relações com políticos são pessoais e sustentou que as declarações de Roberta são incompatíveis com o depoimento prestado por ela às autoridades.