João Pessoa, domingo, 23 de agosto de 2026
Desistência de Ricardo Barbosa revela o jogo político além de 2026
23/08/2026 18:13
Redação ON Reprodução

A desistência de Ricardo Barbosa de disputar uma vaga na Câmara Federal é mais do que um recuo eleitoral. Ao abandonar uma candidatura que poderia largar com o peso dos 63.777 votos conquistados em 2022 para assumir uma função estratégica na campanha de Aguinaldo Ribeiro, o ex-presidente da Companhia Docas da Paraíba entra em uma articulação que ultrapassa as eleições deste ano e começa a desenhar o tabuleiro político de 2028.

Com quatro mandatos na Assembleia Legislativa, Ricardo não é um principiante convencido a abrir mão de uma candidatura apenas para atender ao pedido de um amigo. Tampouco Aguinaldo, um dos políticos mais experientes e habilidosos da Paraíba, faria reiteradamente esse convite sem avaliar os efeitos imediatos e futuros da operação.

Oficialmente, Ricardo ajudará a coordenar a campanha de reeleição de Aguinaldo e colocará sua experiência a serviço da continuidade do projeto liderado pelo governador Lucas Ribeiro. Nos bastidores, entretanto, a movimentação pode representar a construção de um espaço político mais amplo para Ricardo e, ao mesmo tempo, o fortalecimento do grupo comandado pela família Ribeiro.

Ao retirar sua candidatura, Ricardo deixa de ser um concorrente dentro da chapa proporcional do Progressistas e passa a trabalhar diretamente para ampliar a votação de Aguinaldo. Em troca, preserva seu capital político, permanece no centro das decisões e se credencia para ocupar uma posição importante mais adiante. Não está saindo do jogo. Está apenas trocando de função e aguardando a próxima rodada.

O próprio Ricardo fez questão de definir sua decisão como um “recuo estratégico, consciente e responsável”. A expressão foi cuidadosamente escolhida. Recuo estratégico significa abrir mão de uma disputa no presente para buscar uma posição mais favorável no futuro.

Jogada de Léo Bezerra

Movimento semelhante, embora com outros personagens e interesses, ocorreu poucos dias antes em João Pessoa. O prefeito Léo Bezerra decidiu declarar seu segundo voto para o Senado a Nabor Wanderley, juntando o candidato do Republicanos a Veneziano Vital do Rêgo, do MDB.

A escolha consolidou o afastamento de Léo do grupo do ex-governador João Azevêdo, iniciado com a perda do comando municipal do PSB e completado com sua filiação ao PSDB. Também significou deixar em segundo plano André Gadelha, integrante da chapa senatorial do MDB.

O apoio a Nabor não deve ser compreendido apenas como uma decisão relacionada à eleição para o Senado. Ele aproxima o prefeito de João Pessoa do Republicanos e de um grupo político com forte presença na capital e no interior, abrindo caminho para uma composição voltada à eleição municipal de 2028, quando Léo deverá buscar a renovação do mandato.

Assim como Ricardo Barbosa, Léo Bezerra tomou uma decisão que produz efeitos imediatos, mas parece ter sido concebida principalmente para render dividendos no futuro próximo. São movimentos executados por políticos experientes, cercados por articuladores e profissionais de marketing que conhecem o valor de cada apoio, de cada renúncia e de cada compromisso assumido.

Ninguém entrega gratuitamente uma candidatura com mais de 60 mil votos. Da mesma forma, um prefeito da capital não escolhe seu segundo candidato ao Senado sem calcular as consequências para o próprio projeto político.

Ricardo Barbosa abriu mão da candidatura para ajudar Aguinaldo Ribeiro. Léo Bezerra abriu espaço em sua chapa informal para Nabor Wanderley. À primeira vista, são decisões distintas e sem ligação direta. Na lógica dos bastidores, porém, carregam a mesma mensagem: enquanto os eleitores acompanham a campanha de 2026, algumas das principais lideranças da Paraíba já começaram a disputar 2028.

As articulações fervem a mil por hora. Ainda é difícil saber exatamente quais compromissos foram assumidos e onde cada personagem pretende chegar. Mas uma coisa parece clara: na política paraibana, quase ninguém está movimentando uma peça pensando apenas na eleição que está diante dos olhos.

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