A Copa do Mundo Feminina de 2027 deve movimentar R$ 8,8 bilhões na economia brasileira e acrescentar R$ 3,8 bilhões ao Produto Interno Bruto (PIB), segundo estudo elaborado pela FGV Projetos a pedido da Embratur. A competição, marcada para acontecer entre 24 de junho e 25 de julho do próximo ano, também deve gerar 73,7 mil postos de trabalho diretos e indiretos. Diante desse impacto, o torneio amplia a discussão sobre como transformar a visibilidade gerada pela competição em investimentos e financiamento contínuos para o futebol feminino no país.
Para Rafaella Krasinski, advogada especialista em Direito Empresarial, da Assessoria Talento, empresa especializada na estruturação, gestão e captação de recursos para projetos esportivos por meio de leis de incentivo fiscal, o Mundial oferece uma oportunidade para conectar o interesse crescente pela modalidade a uma estrutura financeira capaz de permanecer nos anos seguintes. “A Copa reúne público, empresas, patrocinadores e poder público em torno do futebol feminino. Se essa mobilização estiver acompanhada de projetos estruturados, fontes de recursos bem definidas, indicadores e governança, existe uma oportunidade concreta de ampliar o desenvolvimento da modalidade por muitos anos”, afirma.
Esse processo encontra um futebol feminino maior do que o de poucos anos atrás. De 2021 a 2026, o número de competições nacionais adultas e de base organizadas pela Confederação Brasileira de Futebol passou de seis para nove. No mesmo período, os clubes participantes aumentaram de 58 para 79 e a quantidade de partidas saltou de 398 para 712, alta de 79%. Para o ciclo de 2024 a 2029, a CBF projeta mais de R$ 685 milhões em investimentos nas competições femininas.
Na avaliação de Rafaella, esse crescimento ajuda a criar um ambiente favorável para que novas fontes de recursos acompanhem a evolução esportiva. “Quando aumenta o calendário, cresce também a necessidade de planejamento. São equipes que precisam manter atletas, comissão técnica, viagens, treinamentos e formação de base durante toda a temporada. A oportunidade está em aproximar essa demanda de empresas e mecanismos de incentivo capazes de financiar projetos com continuidade”, explica.
Visibilidade pode virar estrutura
A preparação para o Mundial já inclui uma discussão específica sobre o que ficará depois da competição. O Ministério do Esporte avança na construção do Plano Nacional de Legado da Copa do Mundo Feminina, desenvolvido a partir de ações interministeriais e de uma consulta pública que recebeu 188 propostas individuais e contribuições de 23 encontros autogestionados. O planejamento reúne iniciativas voltadas a ampliar os efeitos sociais e esportivos da competição para além de 2027.
A elaboração do plano também atende a uma determinação do Tribunal de Contas da União para que o país organize objetivos estratégicos, fontes de financiamento e mecanismos de acompanhamento do legado da competição. Mais do que uma agenda ligada à realização das partidas, a iniciativa abre espaço para discutir como o crescimento provocado pelo Mundial poderá alcançar a formação esportiva, os clubes e as ações de acesso ao futebol feminino.
No Congresso, essa agenda também avançou. O Projeto de Lei 4.578 de 2025, aprovado pelo Senado no início de setembro e encaminhado à sanção presidencial, estabelece diretrizes para o desenvolvimento do futebol feminino e inclui medidas voltadas à profissionalização, formação de atletas e consolidação do legado relacionado ao Mundial.
Para Rafaella, o momento permite ampliar o conceito de legado. “O estádio cheio e o aumento da audiência são importantes, mas existe a possibilidade de ir além. Legado também pode ser uma menina que encontra uma categoria de base estruturada, um clube que consegue planejar a temporada seguinte ou uma iniciativa social que passa a atender mais pessoas porque encontrou uma fonte recorrente de financiamento”, ressalta.
Na prática, isso exige que clubes, associações, institutos e demais organizações estejam preparados para aproveitar o interesse que deverá crescer até 2027. Definição de público, orçamento, metas, cronograma, indicadores, acompanhamento financeiro e prestação de contas são elementos que permitem transformar uma intenção de patrocínio em uma iniciativa capaz de receber e executar recursos.
“Quanto mais claro estiver o projeto, mais fácil é para uma empresa entender onde o dinheiro será aplicado e qual resultado aquele investimento pretende gerar. Não se trata apenas de captar. Existe todo um trabalho anterior de estruturar a proposta e outro posterior de executar, acompanhar e demonstrar o que foi entregue”, aponta a especialista.
Incentivos ampliam as possibilidades
A Copa também acontece em um momento de mudança nas regras de incentivo fiscal ao esporte. A Lei Complementar nº 222, de 2025, criou um marco mais amplo para esses mecanismos no país. Além do Imposto de Renda, usado no incentivo federal, estados e municípios podem trabalhar com tributos como ICMS e ISS, conforme as regras de cada local.
Na prática, isso amplia as possibilidades de empresas destinarem recursos a iniciativas esportivas. O dinheiro, porém, não chega automaticamente. Para acessar esses mecanismos, clubes, associações e outras entidades precisam apresentar projetos estruturados, com orçamento, objetivos, metas e prestação de contas.
Para o futebol feminino, esse ambiente pode ajudar a financiar diferentes etapas do desenvolvimento da modalidade. Os recursos podem apoiar desde projetos de iniciação esportiva e categorias de base até formação de atletas, participação em competições e ações sociais ligadas ao esporte.
“O financiamento pode acompanhar toda a trajetória esportiva. É possível estruturar uma iniciativa para quem está começando, apoiar atletas em formação e também equipes que já disputam competições de alto nível. A oportunidade está em criar projetos que deem continuidade a esse desenvolvimento”, afirma Rafaella.
Com nove competições nacionais, um calendário maior e novos investimentos previstos para os próximos anos, a realização da Copa no Brasil pode aproximar ainda mais empresas, clubes e entidades esportivas. Para Rafaella, aproveitar esse interesse começa antes mesmo do Mundial.
“A Copa pode colocar o futebol feminino ainda mais em evidência e aproximar novas empresas da modalidade. Se clubes e organizações estiverem preparados para apresentar bons projetos e mostrar onde os recursos serão aplicados, esse interesse pode se transformar em investimento que continue depois da competição”, conclui Rafaella.
