João Pessoa, terça-feira, 13 de outubro de 2026
Barham Salih: “Devemos proteger as pessoas refugiadas, mas também enfrentar o deslocamento prolongado”
13/10/2026 17:49
Redação ON Reprodução

Em seu primeiro discurso no Comitê Executivo, Barham Salih alertou para o custo humano do deslocamento global desenfreado e apresentou uma visão para ajudar os refugiados a superar a dependência.

Ao proferir seu primeiro discurso na sessão anual do Comitê Executivo do ACNUR em Genebra, o Alto Comissário afirmou ter encarado seus primeiros nove meses no cargo – e a responsabilidade de ajudar aqueles sob o mandato do ACNUR – sob uma perspectiva profundamente pessoal, tendo vivenciado o deslocamento forçado e atuado anteriormente como chefe de Estado.

“Sei o que significa precisar de proteção. E conheço as decisões difíceis que os governos precisam tomar. Compreendo o quanto essas decisões podem moldar profundamente a vida das pessoas”, disse Salih. “As pressões são reais. Assim como as nossas responsabilidades.”

Desde que assumiu o cargo em janeiro, o Alto Comissário visitou 15 operações do ACNUR ao redor do mundo, do Chade à Ucrânia, da Etiópia ao Afeganistão e da Síria à Venezuela.

Essas viagens não apenas revelaram a dimensão do desafio enfrentado pelo ACNUR em um momento difícil da história da organização, mas também reforçaram uma convicção fundamental.

“Devemos proteger as pessoas quando elas são forçadas a fugir, mas não podemos aceitar o deslocamento indefinido como o futuro delas”, disse ele. “Devemos medir o sucesso não apenas pelas vidas que salvamos, mas pelas vidas que as pessoas conseguem reconstruir e pelas soluções duradouras que podem encontrar.”

Segue o link para o discurso de abertura na íntegra (em inglês) proferido ontem por Barham Salih, Alto Comissário da ONU para Refugiados, durante a reunião anual do Comitê Executivo (ExCom, o órgão diretivo) do ACNUR.

Principais pontos do discurso

Uma nova visão: a proteção é essencial, mas o deslocamento não deve ser permanente.

A mensagem central foi a de que a ajuda humanitária salva vidas, mas o sucesso também deve ser medido pela capacidade das pessoas refugiadas alcançarem a autossuficiência e encontrarem soluções duradouras. É por isso que o ACNUR lançou a visão “50 por 35”, visando reduzir a dependência de assistência humanitária.

“Mais um ano de sobrevivência em situação de deslocamento” não deve ser considerado um resultado aceitável, afirmou o Alto Comissário do ACNUR, Barham Salih. O objetivo é reduzir a necessidade de ajuda humanitária por meio de iniciativas que promovam a autossuficiência, inclusão econômica e soluções duradouras, como o retorno voluntário, o reassentamento e a integração local. Salih anunciou várias novas iniciativas, incluindo:

• Uma Estratégia Global para a Autossuficiência, para ampliar o acesso dos refugiados a emprego, serviços financeiros, empreendedorismo e mercados.

• Um novo mecanismo de financiamento no âmbito do ACNUR para mobilizar mais investimentos em desenvolvimento.

A crise global de deslocamento está se agravando

Mais de 117 milhões de pessoas estão deslocadas à força em todo o mundo. Os conflitos estão durando mais tempo e se espalhando, gerando deslocamentos em um ritmo mais acelerado do que a capacidade de encontrar soluções.

Defesa firme do asilo e da Convenção sobre Refugiados em seu 75º aniversário

A Convenção sobre o Estatuto dos Refugiados de 1951 permanece tão relevante quanto sempre, ressaltou o Alto Comissário. A resposta à pressão sobre os sistemas de asilo deve ser uma implementação mais eficaz, e não um retrocesso em relação aos princípios de proteção aos refugiados. “Os princípios perduram. Nosso esforço coletivo para implementá-los deve evoluir”, disse Salih.

A educação é uma prioridade estratégica

Salih observou que 5,8 milhões de crianças refugiadas permanecem fora da escola e destacou o lançamento planejado de uma nova iniciativa, “Aiming Higher” (Visando Mais Alto), para ampliar o acesso de estudantes refugiados ao ensino superior por meio de parcerias com governos, instituições de ensino superior e o setor privado.

Alerta sobre a crise de financiamento

“A proteção tem um patamar mínimo. Abaixo dele, o sistema não se torna apenas menor; a proteção que podemos oferecer começa a falhar”, disse o Alto Comissário, alertando que os ganhos de eficiência têm limites e que os serviços de proteção já estão sendo afetados.

As necessidades do ACNUR para 2026 totalizam US$ 8,505 bilhões, e os recursos disponíveis (em 9 de outubro) eram de US$ 3 bilhões (35% do financiamento obtido). As reformas do ACNUR incluem: operações em nível de país com maior autonomia, concentradas onde a nossa atuação direta agrega mais valor; escritórios regionais mais enxutos e estratégicos, focados na supervisão e no apoio às operações; e uma sede mais ágil, com responsabilidades mais claras quanto às funções globais.

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