A geração que trocou o “ter” pelo “ser” chega à meia-idade e descobre que autonomia também exige patrimônio, capital e tempo
A geração que fez da mobilidade, das experiências e do propósito parte de sua ideia de liberdade, começa a encarar uma contradição aos 40. Eles entenderam que continuar escolhendo também custa dinheiro.
Para se ter uma idéia desse movimento, no Brasil, 38% dos millennials de 30 a 44 anos têm algum investimento financeiro, segundo o Raio X do Investidor Brasileiro 2026, realizado pela Anbima em parceria com o Datafolha. No conjunto da população pesquisada, apenas 33% conseguiram poupar em 2025.
Para Thiago Shimada, formado em Comunicação Social, pós-graduado em Neurociência e estrategista de Business Performance, com atuação na interface entre comportamento humano, tomada de decisão, liderança e negócios, a discussão não está em classificar os millennials como irresponsáveis. O ponto é entender como uma geração que valorizou o “ser”, a mobilidade e as experiências chega à meia-idade percebendo que a própria liberdade também depende de estrutura financeira.
“Trocar o ter pelo ser fez sentido como reação a um modelo de vida baseado apenas em acumulação. O problema aparece quando construir patrimônio passa a ser interpretado como o oposto da liberdade. Em algum momento, a conta chega porque sustentar essa autonomia também exige recursos”, afirma Shimada.
Essa tensão aparece em um levantamento do Thriving Center of Psychology com mais de mil millennials. O estudo constatou que 49% se sentiam presos às próprias circunstâncias, 62% havia adiado grandes marcos da vida por motivos financeiros e 81% afirmaram não ter condições de bancar uma crise de meia-idade.
A provocação não significa que viajar tenha sido um erro, que experiências tenham menos valor ou que todos deveriam ter comprado um imóvel aos 25 anos. Renda, custo de vida, preço da moradia, crises econômicas e mudanças nas relações de trabalho também interferem diretamente na capacidade de acumular recursos. A questão é outra, parte das restrições econômicas enfrentadas por essa geração pode ter convivido com uma mudança cultural que tornou a posse menos desejável e a flexibilidade mais valorizada.
O patrimônio que foi adiado
Um estudo publicado no International Journal of Urban and Regional Research ajuda a revelar essa contradição no Brasil. Os pesquisadores Rafael Kalinoski e Mario Prokopiuk analisaram 545 pessoas, entre elas 258 millennials, para investigar aspirações relacionadas à moradia, propriedade e flexibilidade.
Quando os participantes desse grupo foram questionados sobre como gostariam de viver na velhice, 94,5% disseram desejar morar em um imóvel próprio. Para os autores, o resultado aponta para um fenômeno chamado de “adiamento aspiracional”, a preferência pela flexibilidade no presente não necessariamente elimina o desejo de construir patrimônio, mas pode postergá-lo.
Para Shimada, a leitura ajuda a separar duas situações que nem sempre são percebidas da mesma forma. “Existe uma diferença entre decidir que não se quer possuir algo e transformar uma dificuldade de acesso em uma escolha de estilo de vida. Em alguns casos, o discurso do ‘eu não preciso ter’ pode conviver com uma realidade em que ter simplesmente ficou muito mais difícil”, analisa o estrategista.
Isso não transforma a casa própria em medida obrigatória de sucesso. Imóveis, investimentos e reserva financeira são caminhos possíveis dentro de uma construção maior. O ponto central é o patrimônio como instrumento de autonomia.
Liberdade cobra estrutura
Patrimônio, nesse sentido, não serve apenas para comprar coisas. Ele reduz a dependência exclusiva da renda produzida no presente e cria margem para atravessar períodos de instabilidade, reorganizar a carreira ou recusar escolhas feitas apenas por necessidade financeira.
“Patrimônio compra tempo e capacidade de escolha. Quando toda a vida depende da renda que precisa entrar no mês seguinte, existe liberdade enquanto a capacidade de produzir permanece intacta. Uma reserva começa a mudar essa relação porque permite decidir sem a mesma pressão da urgência”, explica Shimada.
A diferença ganha peso com a idade. Aos 20 ou 25 anos, boa parte do capital de uma pessoa está concentrada no próprio tempo, energia e capacidade de trabalho. Há mais espaço para recomeçar, aceitar uma queda temporária de renda ou investir anos na construção de uma nova trajetória.
Duas décadas depois, a equação costuma incluir compromissos familiares, despesas maiores e menos tempo para recuperar decisões financeiras adiadas. O desafio não está em abandonar experiências para acumular bens, mas em impedir que a liberdade construída dependa indefinidamente da capacidade de produzir no mesmo ritmo.
O tempo muda o peso das escolhas
Uma análise da Realtor.com publicada em 2026, com dados longitudinais do Panel Study of Income Dynamics, mostra como o tempo pode influenciar a formação patrimonial. Nos Estados Unidos, a idade mediana do comprador do primeiro imóvel passou de aproximadamente 30 anos, em 1990, para 40 anos, em 2025. No grupo analisado, adquirir a primeira casa até os 32 anos esteve associado a um patrimônio líquido 22,5% maior aos 50 anos em comparação com a compra apenas na faixa dos 40.
O dado não transforma o imóvel em regra de investimento, tampouco pode ser transferido automaticamente para a realidade brasileira. Ele ilustra um princípio mais amplo da formação patrimonial, capital precisa de tempo.
Quem começa antes não acumula apenas o valor poupado, mas sim conquista anos para que investimentos, ativos e rendimentos se desenvolvam e cria uma proteção que pode ampliar as possibilidades futuras. O efeito não está somente no tamanho do patrimônio, mas no número de decisões que deixam de depender exclusivamente do próximo salário.
“Aos 25, o tempo parece um recurso quase inesgotável. Aos 40, ele começa a entrar na conta. A pessoa percebe que não precisa apenas de coragem para mudar de profissão, abrir um negócio ou reorganizar a própria vida. Precisa ter condições materiais para sustentar essa mudança enquanto ela ainda não produz resultado”, observa Shimada.
É justamente aí que a antiga oposição entre “ser” e “ter” perde força. Construir capital não exige abandonar propósito, mobilidade ou experiências. Pode ser o que permite preservar esses valores quando surgem uma demissão, uma queda de renda, uma responsabilidade familiar ou a vontade de recomeçar.
“Talvez o erro não tenha sido escolher experiências. Foi imaginar que a liberdade conseguiria se sustentar sozinha. Sem alguma construção patrimonial, ela fica muito dependente do salário seguinte, do próximo contrato e da capacidade de continuar produzindo”, conclui Shimada.
Aos 40, portanto, a pergunta deixa de ser quanto uma geração escolheu ter ou viver. O que passa a importar é quanto de sua autonomia futura ainda depende exclusivamente da energia que conseguirá produzir amanhã.
O plano dos millennials deu errado ou apenas ficou muito mais caro do que parecia?
