quarta-feira, 27 de maio de 2026
Como os ambulantes de João Pessoa inspiram uma nova ponte entre o informal e o formal
26/05/2026 20:42
Por Marcondes Brito Reprodução

Antes que as primeiras cadeiras coloridas ocupem a areia de Tambaú, a praia de João Pessoa já pulsa. Ainda no escuro da madrugada, caixas térmicas cruzam o calçadão, carrinhos pesados deslizam pela areia e olhos atentos vigiam discretamente o movimento da fiscalização. Logo, o som das ondas ganha a companhia do apito do Pix no celular. Em uma das capitais turísticas que mais crescem no Brasil, uma economia inteira desperta antes mesmo do primeiro turista entrar no mar.

A praia, para centenas de famílias, não é cartão-postal. É teto, sustento e sobrevivência. Enquanto João Pessoa vive um boom turístico e se consolida como um dos destinos mais desejados do Nordeste, uma disputa silenciosa transforma a rotina de quem depende da orla para viver. De um lado, o poder público, pressionado pelo Ministério Público, tenta reorganizar o espaço urbano com regras na faixa de areia e no calçadão. Do outro, trabalhadores que afirmam: as novas restrições sufocam a renda de quem, há décadas, molda a própria identidade cultural e turística da capital paraibana.

O conflito acirrou-se com a cobrança do cumprimento de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) firmado em 2023. A prefeitura sustenta que não pretende proibir o trabalho, mas regulamentá-lo para garantir segurança, higiene e acessibilidade. Os ambulantes, no entanto, sentem o peso de regras que nem sempre enxergam a urgência de quem precisa do ganho diário para comer.

Sentindo na própria pele

Márcia Medeiros

“Ser ambulante foi a coisa que mais me ensinou na vida”, resume Márcia Medeiros, presidente da Associação dos Ambulantes da Paraíba.

A história dela espelha milhares de trabalhadores invisíveis pelo litoral brasileiro. Márcia já vendeu guarda-chuva no centro, trabalhou no Brás em São Paulo e hoje desbrava o interior do estado. Entre uma calçada e outra, acumulou ameaças, crises de ansiedade e processos – dores que, segundo ela, vieram por assumir a linha de frente na defesa da categoria.

Mas é ao falar da própria mesa que a voz lhe embarga. Márcia sustentou a família inteira na areia, ao lado do marido. Tentou outros caminhos, mas a praia e o contato olho no olho com as pessoas sempre a chamavam de volta. Lembra, com os olhos marejados, que só recorreu a auxílios oficiais na pandemia, quando o isolamento esvaziou o mar e silenciou as vendas.

“Foi o único momento em que precisei de ajuda oficial para sobreviver”, relembra. “Quando você é ambulante, aprende a sentir a dor do outro.”

O relato de Márcia revela a engrenagem humana por trás da água de coco gelada, do queijo coalho tostado, do artesanato e do biquíni sob o sol. O que o turista vê como comodidade é, na verdade, um ecossistema vivo de micronegócios.

E essa economia mudou. O antigo vendedor que só aceitava moedas hoje domina o pagamento instantâneo, cria vitrines no Instagram, fideliza clientes por WhatsApp e faz entregas programadas. Muitos já se percebem como microempreendedores; outros, no entanto, ainda caminham na linha tênue entre o esforço e a exclusão econômica.

É nessa fratura que reside o grande desafio – e também a grande oportunidade: como acolher o ambulante tradicional nos modelos de negócios formais sem descaracterizar sua essência? Márcia desabafa que muitos ainda não se sentem abraçados: “O ambulante paga o MEI, mas muitas vezes trabalha sem a garantia de onde poderá estar amanhã”.

E toda essa mobilização dos ambulantes de João Pessoa contra as mudanças previstas no TAC da Orla culminou, nesta terça-feira (26/5), em uma reunião realizada na sede da Assembleia Legislativa da Paraíba. Representantes da categoria, liderados por Márcia Medeiros, foram recebidos pelo presidente da ALPB, Adriano Galdino, além do deputado Lucas Galdino, da defensora pública Fernanda Peres, da Defensoria de Direitos Humanos, e do procurador federal José Godoy. O encontro reforçou a tentativa dos trabalhadores de ampliar o debate institucional sobre as medidas que vêm sendo questionadas pelos comerciantes, que alegam risco ao sustento de centenas de famílias que dependem do trabalho na orla da capital.

Não é só em João Pessoa

Essa realidade ecoa em capitais como Rio de Janeiro, Salvador, Recife, Fortaleza e Maceió. Em todas elas, a valorização litorânea pressiona o espaço público. Mas é justamente aí que o olhar técnico pode se vestir de empatia e construir solução.

Germana Espíndola, do Sebrae

Para Germana Espíndola, analista do Sebrae Paraíba, o debate não pode ser reduzido a uma simples questão de informalidade ou ocupação de espaço.

“Quando olhamos para a orla de João Pessoa, enxergamos a beleza e o lazer. Mas ali pulsa uma economia real, diária, movida por trabalhadores que transformaram a necessidade em sua principal força produtiva”, diz.

Germana entende as dores da categoria e aponta o Sebrae não como um agente de burocracia, mas como uma ponte de emancipação. O desafio, segundo ela, é traduzir a formalização para a linguagem da areia – mostrando que ela não existe para taxar, mas para proteger.

“Muitos ainda enxergam a formalização como um peso burocrático. Mas o nosso papel é mostrar que formalizar significa dignidade: é ter direito a crédito para crescer, proteção previdenciária em caso de doença, emitir nota e ter a segurança jurídica que eles tanto buscam”, explica.

Ela exalta a impressionante capacidade de adaptação digital desse comércio popular. “O Pix e as redes sociais integraram a praia ao ecossistema digital. O cliente compra no guarda-sol e continua consumindo depois, por encomenda. Não estamos falando apenas de sobrevivência; estamos falando de inteligência de mercado, de pessoas que criam estratégias brilhantes de fidelização.”

Informalidade não deve ser um problema

Para o Sebrae, a informalidade não deve ser vista como um problema a ser extirpado, mas como o ponto de partida para a inclusão produtiva e social. “Fortalecer o ambulante da orla é oxigenar a economia local, gerar distribuição de renda na base e promover um desenvolvimento humano e inclusivo. O pequeno ambulante não está à margem da economia. Ele é a engrenagem dela”, defende Germana.

Em João Pessoa, o impasse segue latente, por vezes transbordando em protestos que fecham avenidas, enquanto a prefeitura mantém o foco no cumprimento do TAC. No epicentro dessa queda de braço, permanecem homens e mulheres que acordam antes do sol, sem saber se o sustento do dia seguinte está garantido. Para muitos, a praia foi a única porta aberta em um mercado de trabalho excludente.

E é essa contradição que transforma a orla paraibana no palco de um dos debates mais sensíveis do país: como ordenar o espaço urbano sem sufocar a economia popular que dá vida e alma a esse mesmo espaço? A resposta não está na extinção do informal, mas na coragem de formalizar o que já funciona – com respeito, escuta e ferramentas que cabem no bolso de quem carrega o peso do sol.

Ao fim da tarde, quando os turistas recolhem seus pertences levando na memória o famoso pôr do sol de João Pessoa, os ambulantes iniciam sua segunda jornada. Desmontam barracas, recolhem cadeiras e empurram seus carrinhos pesados pela areia que começa a esfriar. Para quem tem o rosto marcado pelo sol e pelo suor do trabalho, o ordenamento da praia nunca foi uma discussão sobre metros quadrados. Sempre foi sobre o direito de existir, trabalhar – e prosperar com dignidade.

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