Quando o assunto é orientação sexual, heterossexualidade, homossexualidade e bissexualidade costumam ocupar quase todo o espaço da conversa. Mas existe uma letra que frequentemente é ignorada — ou mal compreendida: o “A”, de assexualidade.
Esse é um grupo que os dados classificam como “raro”. Segundo estimativas, apenas cerca de 0,4% a 1% da população mundial se identifica como assexual. No Brasil, dados do Instituto de Psiquiatria da USP apontam que, entre pessoas de 18 a 80 anos, quase 8% das mulheres e 2,5% dos homens se declararam assexuais. Os números podem parecer pequenos, mas por trás deles existem milhões de pessoas reais.
“Raro” não significa “inexistente”. Hoje, vamos conversar sobre isso com leveza, mas também com seriedade.
O que é assexualidade?
De forma simples, assexualidade é uma orientação sexual: a pessoa sente pouca ou nenhuma atração sexual. Não é uma escolha, não é celibato e muito menos uma doença que precise de “cura”.
Uma distinção importante: assexual não é o mesmo que assexuado. Assexuado é um termo biológico para organismos sem órgãos sexuais. Já a pessoa assexual tem desejos e capacidades afetivas plenas — simplesmente não direciona essa energia como atração sexual por outras pessoas.
E a assexualidade é um espectro, não um rótulo de “tudo ou nada”:
· Assexual estrito: não sente atração sexual por nenhum gênero.
· Demissexual: só sente atração sexual depois de construir um vínculo emocional profundo.
· Assexual cinza (grayssexual): sente atração sexual raramente, em situações muito específicas.
· Assexual fluido: pode transitar por diferentes pontos do espectro ao longo do tempo.
Alguns mitos sobre assexualidade
Mito 1: “É só porque ainda não encontrou a pessoa certa”.
Essa é a frase que assexuais mais ouvem — às vezes acompanhada de um “deixa que eu te ensino a gostar”. Esse tipo de postura é desrespeitoso. Assexualidade não é um estado “esperando ser ativado”, é uma forma estável de existir.
Mito 2: “Assexuais não namoram, não se relacionam”.
Atração sexual e atração romântica são coisas diferentes. Pessoas assexuais podem sentir atração romântica, desejar companhia, carinho, abraço e conexão profunda. Só que, nessas relações, sexo não é uma necessidade. Existem assexuais românticos e também arromânticos — e nenhum dos dois deixa de construir laços afetivos significativos.
Mito 3: “É doença, trauma ou problema hormonal”.
Assexualidade não é “baixa libido”, não é sequela de trauma e não é desequilíbrio hormonal. É uma orientação sexual. Pode até acontecer de alguém ter alteração de desejo por causa de medicação ou saúde, mas a assexualidade como identidade não precisa de tratamento.
Por que esse “1%” merece visibilidade?
Porque o que não é visto acaba causando danos concretos.
No ambiente médico, pessoas assexuais muitas vezes passam por situações desconfortáveis ou constrangedoras. Há relatos de pacientes que, ao dizerem que não têm vida sexual, ouvem que “então não precisa fazer certos exames” — e acabam perdendo rastreios básicos de saúde. A literatura científica também mostra que, na clínica, a ausência de desejo sexual costuma ser lida automaticamente como “disfunção”, e não como uma expressão normal da sexualidade.
No plano social, existe uma pressão peculiar: um mundo que trata o sexo como padrão fica perguntando “por que você não faz?”, “você não tem problema?”. Essa cobrança invisível leva muita gente a anos de autodúvida. Estudos indicam que a população assexual apresenta índices um pouco mais altos de ansiedade, depressão e retraimento social do que pessoas heterossexuais e não heterossexuais.
Bolo, risada e uma resistência leve
Dentro da comunidade assexual existe um apelido carinhoso: “prefiro bolo” (“I’d rather have cake”).
O que parece piada é, na verdade, uma declaração suave: sexo não é o centro da vida de todo mundo, e isso não tem nada de errado. Tem também um tom de recusa bem-humorada — quando alguém pergunta “por que você não quer transar?”, a resposta pode ser: “porque bolo é melhor”.
Esse tipo de resistência leve é justamente a chave para entender a assexualidade: não colocar o sexo como única medida das relações humanas.
Se você é assexual
Você não precisa ser “consertado”. O que você sente é real, e sua identidade é legítima. Existem milhões de pessoas no mundo vivendo, amando e se conectando no seu próprio ritmo. Entre 21 e 27 de outubro acontece a Semana de Visibilidade Assexual — e aquele “A” sempre foi seu.
Se você não é
Então basta uma coisa: acredite na forma como a pessoa se descreve. Quando alguém diz que é assexual, não é necessário perguntar “por quê”, nem oferecer “soluções”, nem sentir pena. Você não precisa entender completamente — só precisa respeitar.
Afinal, neste mundo, as formas de se conectar com alguém nunca foram só uma.
