
Sim, e não é traição à militância. É traição, no máximo, ao algoritmo.
A vida real não é timeline. No off-line, corpos não pedem RG partidário antes de se aquecerem. O desejo é anárquico: ele atravessa faixas, classes e, sim, urna eletrônica. Aquela química no happy hour, a risada no bar, o braço roçando no metrô — o tesão não chega perguntando se você vota 13 ou 22. Ele chega, ponto.
E isso é humano. É incômodo? É. Mas também é um lembrete de que somos mais que nossas crenças políticas — ou, pelo menos, que nossas crenças não cabem todas num único órgão (o sexual, bem entendido).
Claro, depois do sexo vem o café. E aí, sim, a briga pode ser boa — ou o silêncio constrangedor. Mas o desejo não errou. Ele só lembrou que a gente sente antes de pensar. E que, às vezes, o proibido não é o outro. É admitir que, na cama, a polarização vira peça de teatro, e o que sobra são dois corpos que se querem — apesar de tudo, ou exatamente por causa de tudo.
Então, se a pergunta é “pode?”, a resposta é: pode, mas se prepare. Porque transar com o “inimigo” político não é sobre trair sua bandeira. É sobre encarar que o desejo não tem voto — mas o pós-coito, esse sim, vai exigir diálogo. E se sobrar tesão, melhor ainda: pelo menos a conversa terá um bom argumento de reabertura.
