quinta-feira, 16 de julho de 2026
Uma viagem na viagem
16/07/2026

    Numa madrugada do ano de 1982 partimos de Teresina para Porto Velho, quase quatro mil quilômetros de distância. Ivan, Josafá, Mingo e eu a bordo de uma caminhonete comprada na véspera. Tão ansiosos que nem emplacamos a possante; achávamos que a nota fiscal da concessionária bastaria. Não bastou. Logo no primeiro posto da PRF dona confusão se fez presente. Após muita conversa os gentis policiais concordaram em liberar a expedição, porém aplicando uma multa. Multa salvadora, porque fixamos o papel no para brisa e dali em diante era só explicar nos sucessivos postos da PRF que já havíamos sido liberados lá atrás. E pela estrada afora seguimos bem contentes, apelando para que as granas que nossas famílias nos mandavam estivessem esperando no banco da próxima cidade, o que raramente acontecia. Era um sufoco, até que Mingo lembrou de uma grana que fora obrigado a esquecer em um banco de Rondonópolis. Foi nossa salvação.

    Porém a estrada para chegar até Porto Velho ainda estava sendo construída. Do Mato Grosso em diante os tratores rasgavam a selva e dezenas de caminhões faziam fila para levar suas preciosas cargas, quase sempre rebocados pelos tratores nos seguidos atoleiros. E nós? Rebocados pelos caminhões rebocados.

    Dali pra frente nada de cidades, povoados. Comer o que? A solução foi negociar por dias seguidos com os caminhoneiros o que podiam nos vender. Chovia constantemente. A lama impregnava tudo. Avançávamos poucos quilômetros por hora. A água era reservada para beber. O que não daríamos por um banho! Comunicação zero, porque não existiam celulares. Dormíamos em redes penduradas nas laterais dos caminhões.  Naqueles dias que vivemos ao léu, lembro de lamentarmos a falta de noticiais das famílias e do mundo, da falta de água e de comida decente e muito mais. Porém o que mais lembro era Mingo reclamando da falta de coca cola. Resmungava o tempo todo. Nos longos dias e noites de abandono chegamos mesmo a fazer as contas de quantas coca colas ele consumia por semana, só para animá-lo. Hoje, relembrando aqueles dias, mais do que nunca valorizo a solidariedade dos desconhecidos caminhoneiros que nunca nos abandonaram. E finalmente chegamos à primeira cidade; Vilhena. Gastei um “Alma de flores” no primeiro banho. E fomos à forra na pizzaria, pouco importando que fosse dia de feijoada. Comemos tudo junto e repetimos muitas vezes. Mingo enfim tomou litros de coca cola.

    Naquela noite uma dor; soubemos que Elis Regina havia morrido alguns dias antes. “- Pelo menos para nós ela viveu mais alguns dias”, consolou-nos “My name”. Ah, infame!

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Marcos Pires
Marcos Pires

Marcos Pires é advogado, escritor e carnavalesco.