Provavelmente sou a única pessoa no mundo que frequenta a mesma padaria três vezes ao dia e não come nenhuma espécie de pão.
Logo que as portas abrem já estou à espera, vindo da caminhada da madrugada. Forma-se uma mesa absurdamente eclética, com até 15 participantes. Ricos, lisos, mentirosos, gabolas, tímidos, engraçados…tem de um tudo. Qualquer assunto é discutido aos berros, com as mais loucas justificativas a depender se quem está gritando é bolsonarista ou lulista. É muito comum alguns dos circunstantes levarem panelas recheadas do que eles dizem ser iguarias, tudo sob o olha complacente do proprietário que não cobra nada por essa “concorrência” às suas mercadorias. De tigelas de carne moída a panelas com suspeitas comidas típicas do interior vão chegando as tais iguarias. Recentemente incorporou-se um paulista à mesa e tentou apascentar os indômitos famintos com boas comidas, inclusive um maravilhoso queijo Canastra acompanhado de goiabada cascão. Alto nível. Comeram como comeriam pescoço de sapo ou tanajuras torradas.
Para mim o segredo daquela padaria está no atendimento. Como em todas as outras padarias, lá existe um cardápio que é solenemente desrespeitado por nós, com pedidos inusitados. De bom grado eles fazem mingau de aveia, lambedor, beubrotes, fofenes e o escambau a quatro. Uma vez ofereci 200 reais de gorjeta se me trouxessem um único ovo cozido de um lado e frito do outro. Foi o único pedido não atendido, mas o excelente garçom Junior, que se autoproclama meu maior babão, disse que vai continuar tentando. Ele é tão babão, mas tão babão, que se ofereceu para me babar via internet quando eu estiver viajando.
Volto à padaria pelas onze da manhã, depois da musculação e antes da natação. Outro público, geralmente muitos turistas. Divirto-me nas conversas que puxo, depois que as garçonetes me apontam para eles, cochichando sobre quem sou eu. Vez por outra faço novas amizades. Por fim à tardinha chego na padaria para uma terceira mesa, totalmente diferente das anteriores; mais tranquila, porque discretamente escolho com quem sentar e mais discretamente ainda vou embora quando alguma hipótese humana força sua presença chata.
Por que a padaria? Por que não os bares? Não vou a bares faz tempo. Primeiramente porque não existe conversa plausível entre um sóbrio e um bêbado. Segundo; não há possibilidade de haver uma zaragata numa padaria. Por fim, o custo de dois cafés expressos é bem menor do que o de duas doses de uísque.