A resposta curta é: não. E está tudo bem. A coluna Sem Vergonha não veio para ditar regras, mas para derrubar muros. E esse é um dos maiores muros que a sociedade construiu: a ideia de que amor e sexo são a mesma coisa, ou pior, que um depende do outro para ser válido.
Vamos por partes.
Sexo é encontro, não é obrigação. Quando transformamos a transa em um item de checklist do “relacionamento saudável”, a gente mata a espontaneidade e cria um monstro chamado desempenho. Transar por obrigação para “manter a chama acesa” é o caminho mais rápido para apagar o fogo de vez.
Existem amores que transam todos os dias. Existem amores que transam uma vez por mês. E existem amores que não transam nunca — e são tão profundos, tão cúmplices e tão verdadeiros quanto qualquer outro.
A pergunta certa não é “sexo é indispensável?”, mas sim: “O que é indispensável para nós dois?”
· Indispensável é o respeito.
· Indispensável é o desejo genuíno (que nem sempre é físico, muitas vezes é intelectual ou emocional).
· Indispensável é a liberdade de dizer “sim” hoje e “não” amanhã, sem que o mundo desabe.
O problema começa quando a frequência ou a ausência de sexo vira moeda de troca, motivo de chantagem ou termômetro de afeto. Se o sexo sumiu e isso incomoda, o diálogo é indispensável. Mas se o sexo sumiu e os dois estão em paz, qual é o problema?
Amar é estar junto na cama, mas é também estar junto no sofá, na cozinha, na fila do banco e, principalmente, na vida. O sexo é um dos idiomas do amor, mas não é o único. E nenhum relacionamento sobrevive se a única tradução for a física.
Então, se você está num relacionamento onde o sexo é abundante e gostoso: maravilha. Se está escasso ou inexistente, mas há cumplicidade, carinho e parceria: também maravilha. O que não pode é viver num relacionamento onde a falta de sexo gera culpa e a presença gera pressão.
A Sem Vergonha de hoje te convida a tirar o peso dos ombros. Sexo não é dívida, é desejo. E desejo não se cobra, se cultiva. E às vezes, o cultivo mais bonito é aceitar que a flor não precisa desabrochar todos os dias para que o jardim seja lindo.
No fim, a única coisa realmente indispensável numa relação é a verdade sobre o que cada um sente. O resto — incluindo o sexo — é negociação, é dança, é sintonia. E sintonia desafinada, com conversa, se ajeita. Mas sintonia forçada, só quebra.
Transem se quiserem. Não transem se não quiserem. Mas, acima de tudo, conversem. Sem vergonha.