Seu Alfredo
11/07/2026

A família Batista é enorme e se instalou a Oeste da cidade de Sant’Ana do Garrote, na direção do Rio Maracujá, entre a Aroeira, Serra Branca, a Mata e o Maracujá de Baixo. Depois, muitos se mudaram para a cidade à procura de estudo para os filhos. 

Alfredo Batista foi um deles. Chegou e encampou uma luta pela emancipação política do Distrito de Sant’Ana, então pertencente a Piancó. 

Candidatou-se à Câmara Municipal de Piancó e elegeu-se o primeiro vereador da história de Sant’Ana. E foi além: convenceu o deputado estadual José Teotônio a apresentar um projeto de lei na Assembleia Legislativa criando o município de Sant’Ana do Garrote. 

Teotônio topou, mas mudou o nome para Santana dos Garrotes e ainda fez uma exigência: o candidato a prefeito seria Renato Teotônio, irmão do deputado, com o apoio da família Batista. Alfredo aceitou. 

Tempos depois, foi eleito prefeito da cidade. Era um homem alto, esgalgado, de sorriso fácil e muito gentil. Tratava a todos de “meu filho ou minha filha”. 

Gostava de duas coisas: conversar com os estudantes que moravam em João Pessoa, e tomar umas lapadas de aguardente na Bodega de Zé Paulo ou no Bar de Eudes Pinto, os dois únicos lugares em que bebia.

Sempre precisava viajar para a Capital e sua caminhonete andava lotada de estudantes – na ida e na volta. Se hospedava numa pensão no Beco da Faculdade, bem ao lado da Assembleia. 

Nessas viagens, sempre visitava a Casa do Estudante da Paraíba, onde eu morava com meu amigo João Joao Cirino, o Nego Dão. A primeira pessoa que encontrava fazia a abordagem de praxe:

— Onde está aquele magrinho de Antônio Horácio, que os meninos chamam ele de Galo, e o menino de Antônio Caica?

Éramos eu e Nego Dão. A gente descia da Vila, entrávamos no carro do prefeito e ele dava a ordem ao motorista: “Torre”. Pronto, nós já sabíamos. 

Quando chegava no Braseiro Continental, seu Alfredo pedia Galeto e Cerveja como quem pede pão doce para Jumento. Era uma festa. 

Quando tomava umas três ou quatro cachaças e misturava com cerveja, dava uma de poeta e dizia: 

“Em Santana dos Garrotes/Só quem dá jeito é Jesus/De dia faltando água/De noite faltando luz/A padaria fechada/E nos hotéis só tem cuscuz”.

Na volta, ele nos deixava em casa e ainda dava um trocado com uma recomendação:

— Cuidem de estudar. 

Um homem assim não devia morrer nunca.

canal whatsapp banner

Compartilhe:
sobre
Zé Euflávio
Zé Euflávio

Zé Euflávio é um dos jornalistas mais respeitados da Paraíba, com passagens também pelo Correio Braziliense.