João Pessoa, quarta-feira, 30 de setembro de 2026
Presidente do Flamengo usa dívida por Paquetá para defender bets: alguém ficou com pena?
29/09/2026

A reunião que o governo faria nesta terça-feira com dirigentes de clubes e federações para discutir a proibição das bets foi adiada. O encontro deve ficar para depois do primeiro turno, em meio à insatisfação do futebol com a perda de patrocínios. A reclamação faz sentido do ponto de vista financeiro. Nenhuma empresa gosta de perder receita. Nenhum clube recebe tranquilamente um rombo no orçamento. Dentro de casa também é assim: se parte do salário desaparece, é preciso apertar o cinto.

Essa preocupação merece ser ouvida. Contratos foram assinados, despesas foram assumidas e o dinheiro das casas de apostas passou a sustentar uma parcela expressiva do futebol. Os clubes terão de rever gastos, buscar patrocinadores e reorganizar suas contas. A chiadeira é previsível. O problema começa quando a defesa do faturamento pretende se sobrepor ao interesse da sociedade.

O custo das apostas para quem desenvolveu dependência, acumulou dívidas e comprometeu o sustento da família ultrapassa os interesses comerciais de clubes, emissoras ou qualquer outra atividade. O dinheiro que entra como patrocínio tem, na outra ponta, apostadores perdendo recursos que fazem falta em casa. O balanço dessa história precisa considerar também essas famílias.

Foi nesse contexto que o presidente do Flamengo, Luiz Eduardo Baptista, o Bap, resolveu apresentar a contratação de Lucas Paquetá como exemplo do impacto da proibição. A operação, segundo os demonstrativos do clube, custará R$ 315,6 milhões, incluindo luvas e intermediação. Ao recorrer a essa conta para defender a receita das bets, o dirigente escolheu um argumento espantoso.

O Flamengo decidiu trazer um jogador a preço de ouro do futebol inglês e assumiu a obrigação de pagá-lo. É legítimo explicar que a perda de um patrocinador dificulta o cumprimento desse compromisso. Mas esperar que a sociedade se comova com essa dívida, diante do endividamento de tantas famílias, revela uma completa falta de proporção. O país deveria preservar as apostas para ajudar o Flamengo a pagar uma contratação milionária?

Há egoísmo nessa maneira de olhar o problema. E o argumento soa também como deboche: enquanto famílias precisam recuperar o controle da própria vida financeira, um dos clubes mais ricos do Brasil apresenta a conta de seu reforço. Bap pode cobrar diálogo e discutir alternativas para o futebol. Usar Paquetá como apelo à comoção pública é que não dá. O país não deve nada por essa contratação.

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