De Ampulheta de Estrelas
Simão, tu és Pedro
Senhor,
para cumprir a tua palavra,
eu te negarei,
porque não poderemos morrer juntos,
sem que eu afirme tudo o que dissestes à salvação.
Ressuscita-me, Senhor!
Contam que, nas informalidades do conclave, entre os cardeais eleitores, registraram-se votos válidos divididos igualmente entre três candidatos. Após seis escrutínios sucessivos, sempre com o mesmo resultado, surgiram pedidos discretos para que alguns mudassem seus votos.
A mudança foi tão precisa e obediente que o impasse se repetiu mais cinco vezes, sem alterar a balança. Os solicitantes foram tão mutuamente convincentes que um mudou o outro — e vice-versa.
Tentaram outra saída: metade deles absteve-se. Incrivelmente, o resultado foi o mesmo — os três candidatos com a mesma quantidade de votos.
Diante do impasse, alguém propôs que os próprios candidatos decidissem entre si. Isso até lembrava a escolha do sucessor de Cambises, segundo Heródoto. Para manter a tentativa de cópia da história, os três concordaram: aquele que dissesse o maior absurdo — aos olhos do conclave inteiro — seria o escolhido.
Foi então que o cardeal Iscariotes, após breve confábulo, beijou as faces dos dois outros cardeais, postou-se em genuflexão, mãos erguidas ao teto da Capela Sistina, como se emendasse os dedos de Deus e Adão, na pintura de Michelangelo, e proclamou:
— Eu sou o escolhido por Deus, por Jesus e pelo Espírito Santo.
Seguiu-se uma gritaria geral. E, enquanto a fumaça branca subia, anunciava-se ao mundo a chegada de Cristo I, o último papa.
Os cardeais Gestas e Dimas ainda não entenderam nada.

