O recente diagnóstico do ex-presidente Jair Bolsonaro com apneia obstrutiva do sono grave – contabilizando cerca de 50 paradas respiratórias por hora durante o sono – trouxe à tona um problema de saúde pública que costuma passar despercebido .
A doença, que atinge aproximadamente 35% da população adulta brasileira, é muito mais do que um ronco incômodo: é um distúrbio grave, com alta taxa de morbidade e mortalidade, que rouba o sono reparador e sobrecarrega coração e cérebro .
O que Acontece no Corpo Durante uma Noite com Apneia
A apneia obstrutiva do sono acontece quando os músculos da garganta relaxam excessivamente durante o sono, causando o colapso total ou parcial das vias aéreas . O corpo sofre com:
· Quedas bruscas na oxigenação do sangue (dessaturação da oxihemoglobina).
· Microdespertares cerebrais constantes para retomar a respiração, fragmentando profundamente o sono.
· Liberação de adrenalina e noradrenalina, elevando a frequência cardíaca e a pressão arterial dezenas de vezes por noite .
Este último ponto explica um aspecto crítico observado no caso Bolsonaro: a relação direta entre apneia grave e picos de pressão arterial difíceis de controlar, que foram justamente o gatilho para a investigação mais profunda de seu quadro .
Como Identificar a Apneia: Sinais Noturnos e Diurnos
Muitos convivem com os sintomas sem associá-los a uma doença. Fique atento se você ou alguém próximo apresenta:
🏙️ Durante o dia:
· Sonolência excessiva e inexplicável
· Cansaço crônico, mesmo após uma noite “dormida”
· Dificuldade de concentração, lapsos de memória e irritabilidade
· Dores de cabeça ao acordar
🌙 Durante a noite (geralmente relatados por parceiros):
· Ronco alto e interrompido por silêncios (as pausas respiratórias)
· Sensação de sufocamento ou engasgos durante o sono
· Suor excessivo
· Várias idas ao banheiro (noctúria)
A Escala da Gravidade e o Diagnóstico
O diagnóstico padrão-ouro é a polissonografia, um exame que monitora o sono por uma noite inteira . Ele mede o Índice de Apneia-Hipopneia (IAH) – o número de eventos (pausas ou reduções significativas na respiração) por hora de sono. É este índice que classifica a gravidade:
· Leve: IAH entre 5 e 15 eventos por hora.
· Moderada: IAH entre 15 e 30 eventos por hora.
· Grave: IAH superior a 30 eventos por hora.
O caso do ex-presidente, com cerca de 50 eventos por hora, se enquadra no grau grave, o que exige intervenção imediata .
Tratamento: O CPAP e Outras Estratégias
Para casos moderados a graves, o tratamento mais eficaz e comum é o CPAP (Pressão Positiva Contínua nas Vias Aéreas). O aparelho, que também está sendo utilizado por Bolsonaro, fornece um fluxo de ar constante por meio de uma máscara, impedindo o fechamento da garganta .
O CPAP é fornecido pelo Sistema Único de Saúde (SUS) mediante diagnóstico e prescrição médica .
Outras opções incluem:
· Mudanças comportamentais: Perda de peso, evitar álcool e sedativos, dormir de lado.
· Aparelhos intraorais: Feitos por dentistas, avançam levemente a mandíbula para abrir as vias aéreas.
· Cirurgias: Indicadas para corrigir obstruções anatômicas específicas, quando outros tratamentos falham ou não são tolerados .
Um Problema de Saúde Pública Subdiagnosticado
A exposição do caso de uma figura pública serve como um alerta crucial. Estima-se que a maioria das pessoas com apneia no Brasil não saiba que tem a doença . Enquanto isso, dados mostram que 72% dos brasileiros sofrem com algum distúrbio do sono, e a apneia é um dos mais prevalentes .
As consequências do não tratamento são severas, com risco significativamente aumentado para:
· Hipertensão arterial de difícil controle
· Arritmias cardíacas, infarto do miocárdio e Acidente Vascular Cerebral (AVC)
· Diabetes tipo 2
· Acidentes de trânsito e trabalho por sonolência excessiva .
A boa notícia é que a apneia tem tratamento. Procurar um médico ao identificar os sintomas é o primeiro passo para recuperar as noites de sono e proteger a saúde a longo prazo.
A vida não precisa ser sufocada pelo sono. O diagnóstico é a chave para respirar aliviado.