quinta-feira, 16 de julho de 2026
A saúde mental virou indicador de risco e mudou a rotina das empresas
16/07/2026

Mudanças regulatórias estão levando organizações a monitorar comportamento, estresse, engajamento e fatores psicossociais com mais rigor

Os afastamentos por transtornos mentais no Brasil atingiram o maior nível da última década. Segundo dados do Ministério da Previdência Social, mais de 470 mil benefícios por incapacidade relacionados a transtornos mentais e comportamentais foram concedidos em 2024. Ao mesmo tempo, as novas exigências da NR-1 estão levando empresas a estruturar indicadores emocionais para monitorar riscos psicossociais e comprovar medidas preventivas.

Advogada, psicóloga e fundadora da IntegraMente, plataforma especializada em diagnóstico emocional, indicadores emocionais e gestão de riscos psicossociais, Jéssica Palin Martins também é sócia da Palin & Martins, consultoria com atuação nacional em gestão estratégica, conformidade empresarial e programas voltados à saúde mental corporativa. Segundo ela, a principal mudança não está na criação de programas de bem-estar, mas na capacidade de demonstrar resultados. “Os indicadores emocionais passaram a ter função estratégica. Não basta realizar ações isoladas. É preciso medir, documentar e acompanhar”, afirma. 

A atualização da NR-1 elevou os fatores psicossociais ao grupo de riscos que precisam ser monitorados pelas empresas. Com isso, a saúde mental passou a integrar formalmente a gestão de riscos corporativos, exigindo acompanhamento contínuo e evidências documentais das ações adotadas.

O movimento ganhou ainda mais relevância com a Lei 14.831/2024, que instituiu o Certificado Empresa Promotora da Saúde Mental. A legislação estabelece critérios para reconhecer organizações que adotam práticas efetivas de promoção da saúde emocional e bem-estar dos trabalhadores. Entre os requisitos estão ações contínuas, políticas estruturadas e mecanismos de acompanhamento capazes de demonstrar resultados.

O que não está documentado pode não existir para a fiscalização

Segundo a especialista em saúde mental corporativa, muitas organizações ainda confundem campanhas de conscientização com gestão emocional estruturada. A tendência, segundo ela, é que auditorias, fiscalizações e futuras certificações exijam evidências cada vez mais objetivas das medidas adotadas.

“Fiscalizações e certificações tendem a exigir evidências objetivas. As empresas precisarão demonstrar quais riscos identificaram, quais medidas adotaram e quais resultados alcançaram. A gestão emocional precisa ser rastreável”, explica a fundadora da IntegraMente.

Além da conformidade regulatória, o tema possui impacto financeiro direto. Absenteísmo, presenteísmo, aumento da rotatividade, afastamentos médicos e ações trabalhistas estão entre as consequências associadas à falta de monitoramento dos riscos psicossociais. Segundo estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS), depressão e ansiedade geram perdas globais de produtividade equivalentes a cerca de US$ 1 trilhão por ano.

“Quando a empresa não mede, ela perde capacidade de prevenção. O problema deixa de ser apenas humano e passa a afetar produtividade, retenção de talentos, reputação e exposição jurídica. O custo da omissão costuma ser muito maior do que o investimento em gestão preventiva”, afirma a psicóloga.

Nesse contexto, os indicadores emocionais ganham relevância dentro da governança corporativa. Entre os dados mais monitorados estão níveis de estresse ocupacional, percepção de pertencimento, segurança psicológica, conflitos interpessoais, engajamento, exaustão emocional e intenção de desligamento.

“A empresa que não mede não consegue identificar tendências nem agir preventivamente. Os indicadores emocionais transformam percepções subjetivas em informações que apoiam decisões estratégicas”, diz a consultora.

Na avaliação da advogada e psicóloga, o tema também passou a ocupar espaço crescente em áreas como jurídico, compliance, auditoria interna e gestão de riscos. A preocupação deixou de estar concentrada apenas no RH e passou a influenciar decisões relacionadas à governança e à sustentabilidade dos negócios.

“Os indicadores emocionais caminham para ocupar o mesmo espaço estratégico que os indicadores de segurança, qualidade e compliance já possuem nas empresas. O que antes era tratado como diferencial está se tornando uma obrigação de gestão”, conclui Palin.

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