
O Brasil nasceu e cresceu sob a influência de muitas crenças, culturas e tradições. Somos um país católico, evangélico, espírita, de religiões de matriz africana, de tradições indígenas, judaico, muçulmano e também de pessoas que não professam religião alguma. Essa diversidade não diminui ninguém. Ao contrário, compõe o mosaico cultural brasileiro.
Nossa Senhora Aparecida ser reconhecida como Padroeira do Brasil não significa estabelecer uma religião acima das outras nem diminuir a fé de quem não é católico. Trata-se também de uma tradição histórica e cultural profundamente enraizada na formação do país. Respeitar essa tradição não obriga ninguém a professar a fé católica, assim como respeitar um terreiro de candomblé, uma igreja evangélica, uma sinagoga ou uma mesquita não exige adesão às suas crenças.
Há espaço para todos.
A própria geografia brasileira testemunha como a religião e a cultura caminharam juntas através dos séculos. Temos cidades, estados, ruas, igrejas, monumentos e instituições batizados em homenagem a personagens do Antigo e do Novo Testamento e da tradição cristã. São Paulo, a maior cidade brasileira, carrega o nome do apóstolo. São José aparece em incontáveis municípios e localidades. São João, São Pedro, Santa Maria, Santa Catarina e tantos outros nomes fazem parte da paisagem nacional. Nem por isso alguém precisa mudar de religião para morar nesses lugares.
O mesmo Brasil guarda palavras, costumes, comidas, festas, músicas e tradições provenientes dos povos indígenas e africanos, além das contribuições trazidas pelas sucessivas correntes migratórias. É justamente essa mistura que nos caracteriza.
Por isso, não precisamos apagar Nossa Senhora Aparecida para reconhecer quem não acredita nela. Tampouco precisamos apagar santos, orixás ou símbolos de outras tradições para afirmar determinada fé.
E nem tudo precisa ser concentrado exclusivamente em Jesus. Com todo respeito aos que assim professam sua fé, seria até sobrecarregar demais o Filho de Deus e de Nossa Senhora, que, segundo a crença cristã, já carregou uma cruz pesada até o Calvário e nela morreu para a salvação da humanidade.
Na tradição católica, venerar Maria não significa colocá-la no lugar de Cristo. Nossa Senhora Aparecida representa, para milhões de brasileiros, a mãe que acolhe, intercede e acompanha. Para quem não compartilha dessa crença, permanece o dever republicano de respeitá-la como se deve respeitar igualmente a manifestação religiosa do próximo.
O Estado brasileiro é laico. E ser laico não significa ser inimigo das religiões. Significa não possuir religião oficial e assegurar que todas possam existir e se manifestar dentro da lei, garantindo também a liberdade de quem prefere não ter religião.
Nossa Senhora Aparecida pertence à história e à tradição de milhões de brasileiros. Outros brasileiros encontram sua espiritualidade em outros caminhos. Não há contradição nisso.
O Brasil é suficientemente grande para Nossa Senhora Aparecida, para Jesus Cristo, para os santos, para os orixás, para as tradições indígenas e para todas as manifestações de fé que convivam com respeito e tolerância.
A diversidade não precisa destruir a tradição. E a tradição não precisa sufocar a diversidade.
Há espaço para todos.