
A grande ambição dos Estados Unidos é abocanhar as riquezas nacionais, como as terras raras e o pré-sal, e controlar a produção do agronegócio, que, em parte, apoia interesses políticos e econômicos capazes de aprofundar a dependência brasileira.
A soberania nacional não se resume à bandeira, ao hino e às fronteiras. Ela depende do controle sobre os recursos naturais, da autonomia das instituições e da liberdade do povo para escolher seus governantes sem interferências estrangeiras.
É sob essa perspectiva que devem ser examinadas as informações atribuídas à Agência Brasileira de Inteligência (Abin) sobre possíveis iniciativas de ingerência externa na política brasileira. Uma denúncia dessa gravidade exige distinguir os fatos documentados das suspeitas e interpretações políticas.
Segundo reportagens da CNN Brasil e da Folha de S.Paulo, a Abin encaminhou ao Palácio do Planalto, ao Ministério da Justiça e ao Tribunal Superior Eleitoral um relatório que classifica como crítico o risco de interferência norte-americana nas eleições brasileiras de 2026.
O documento aponta que a estratégia de Washington busca reduzir a influência de potências rivais, especialmente a China, e ampliar o controle direto ou indireto dos Estados Unidos e de seu capital privado sobre riquezas naturais e infraestruturas latino-americanas.
Não se trata apenas de uma disputa ideológica. Trata-se de petróleo, minerais estratégicos, tecnologia, mercados e poder econômico.
O Brasil possui cerca de 21 milhões de toneladas de reservas de terras raras, essenciais à fabricação de equipamentos eletrônicos, veículos elétricos e sistemas de defesa. O pré-sal representa outra riqueza estratégica. São patrimônios que colocam o país no centro da disputa internacional por recursos naturais.
A movimentação já produz consequências concretas. A mineradora Serra Verde, em Goiás, passou a integrar uma operação empresarial com a norte-americana USA Rare Earth, acompanhada de um contrato de fornecimento de 15 anos. O Conselho Administrativo de Defesa Econômica abriu procedimento para examinar a operação e seus possíveis efeitos concorrenciais.
O agronegócio também ocupa posição estratégica nessa disputa. Sua enorme capacidade produtiva faz do Brasil um fornecedor indispensável de alimentos. O alinhamento automático de setores do campo a interesses estrangeiros, quando contraria a autonomia comercial brasileira, merece questionamento. Afinal, a quem interessa entregar a outros países o poder de determinar nossos mercados e parceiros?
O governo Trump apresenta sua política como uma iniciativa de segurança nacional e contenção da influência chinesa. O relatório da Abin, porém, identifica riscos à autonomia brasileira e alerta para pressões econômicas, diplomáticas e políticas no contexto eleitoral.
Na minha avaliação, o perigo maior é a formação de um governo que, embora eleito pelos brasileiros, passe a conduzir decisões estratégicas segundo os interesses de Washington. Seria a versão moderna do velho presidente títere: formalmente sentado na cadeira presidencial, mas submetido à vontade de uma potência estrangeira.
A Abin não demonstrou publicamente que exista um plano consumado para instalar esse governante. Seu relatório, conforme divulgado pela imprensa, apresenta uma avaliação de risco e descreve objetivos geopolíticos norte-americanos. Essa distinção não diminui a gravidade do alerta.
O Brasil não conquistou sua independência para trocar a antiga metrópole portuguesa por uma nova tutela estrangeira. Tampouco precisa subordinar-se à China, aos Estados Unidos ou a qualquer outra potência.
Nossa riqueza deve servir ao desenvolvimento nacional, à industrialização, à ciência e à melhoria das condições de vida dos brasileiros.
A independência de um país começa pelo direito de decidir seu próprio destino. E termina quando suas riquezas e suas instituições passam a obedecer a interesses que vêm de fora.
Miguel Lucena é delegado de Polícia do Distrito Federal (aposentado), advogado, jornalista e especialista em Inteligência Estratégica.