quarta-feira, 22 de julho de 2026
Dom Helder, leitor
05/04/2025

Entre as biografias escritas sobre Dom Helder Câmara, a que mais me chamou a atenção foi “O dom da leitura. Helder Câmara e suas bibliotecas”, da historiadora Lucy Pina Neta, que desfrutou da proximidade dele.
Neste livro conhecemos a origem do seu pensamento, formado a partir das leituras e do contato com a literatura, autores e pensadores. Fazendo uma caminhada pelas bibliotecas de Dom Helder, conhecemos os autores que influenciaram sua formação.
Tendo nascido em uma família onde aflorava cultura, pois seu pai era crítico de teatro e sua mãe professora de ensino primário, seria natural seu gosto pelos livros. Cedo teve acesso ao que de melhor existia em termos de literatura de alto nível.
Quando nomeado bispo auxiliar no Rio de Janeiro, em 1952, frequentava rodas de conversas com escritores, estreitando amizade com o escritor Jorge Amado. Sua biógrafa, Lucy Pina Neta, ressalta que em seu mandato de bispo, “era habitual reunir no episcopado intelectuais, teólogos, artistas, para trocar opiniões e encontrar possíveis soluções”.
Ao tempo em que participava das reuniões conciliares, durante o Concílio Vaticano II, Dom Helder aproximou-se de teólogos, destacando-se Yves Congar e o jesuíta Henri de Lubac. Vale destacar a aproximação com o pensamento de Jacques Maritain e Jean Guitton, sem desprezar as leituras de mestres do saber, compromissados com a paz e questões sociais. Por essa época, Dom Helder intensifica a leitura de Gandhi e Thomas Merton.
Passeava pela literatura russa, com destaque para o universo de Dostoievsky, sem, contudo, afastar o olhar para autores brasileiros, porque desejava estar, cada vez mais, em sintonia com os problemas brasileiros, mesmo que os conhecesse a fundo.
Com a bagagem intelectual construída, durante anos de convivência com os pensadores de diferentes escolas, se tornou profundo conhecedor das dores dos pobres, porque vivia com estes. Dom Helder teve uma reviravolta internacional, quando, em 1970, estando em Paris, pronunciava discursos, que abalavam os militares que governavam o Brasil. Proibido de publicar seus textos em nosso país, encontrou espaço em países europeus, onde teria maior repercussão.
Foi nessa época, quando passaram a denominá-lo de “bispo vermelho”, porque passou a ser uma voz profética, na Igreja sul-americana, na defesa dos pobres, das famílias residentes em favelas e no campo. A ditadura militar estremecia a cada pronunciamento dele.
No tempo de Dom Helder, a Igreja tinha um modo próprio de evangelizar, assim como recomenda Jesus. Até recordamos os versos de Gonçalves Dias: “Que saudade que te tenho da aurora da minha vida”.
Poderia se dizer que Dom Helder era um bispo que tinha um livro na mão e muitas ideias na cabeça. Foi um grande líder, um grande padre que conseguiu se importar, devido às muitas leituras.
Não acredito em atividade intelectual, o sacerdócio entra nessa linha de raciocínio, em que o livro esteja ausente do protagonista. A leitura, o estudo, é a base para que a pessoa obtenha sucesso.
Dom Helder Câmara tinha sede de leitura, basta observar o alto nível de seus textos, de suas pregações, de seus poemas. Por isso ele se transformou em um pastor e profeta. A porta de sua casa e seu coração eram abertos para todos. Zeloso no trato apostólico e no amor aos pobres. “O protesto do pobre é a voz de Deus”, afirmou. Porque foi um grande leitor, aprendemos muitas lições com dele.

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José Nunes
José Nunes

José Nunes é jornalista e membro da Academia Paraibana de Letras (APL).