Há uma passagem bíblica que faz referência à riqueza e ao desapego do luxo. “Se queres me seguir, vende tudo e doa aos pobres”. Lembro disso quando percebo o silêncio da Igreja acerca do trabalho caritativo e missionário de Padre José Coutinho, ainda mais agora quando completou 53 anos da sua morte. Na Paraíba, à semelhança de Padre José Maria Ibiapina, no século XIX, Padre Zé foi o maior benfeitor.
Em escaldante dia de sol de novembro, o fundador do Instituto São José e do Hospital Padre Zé, em cadeira de rodas, sob o guarda-sol, o suor no rosto umedecendo a toalhinha, a batina preta cobrindo as pernas inchadas, em Dia de Finados, ele pedia esmolas no Cemitério Senhora da Boa Sentença, como fazia há décadas, passou mal e foi levado às pressas ao hospital, onde faleceria três dias depois.
Nascido em família católica, com tios padres, influentes na Igreja da Paraíba no final do século 19, a história de Padre Zé Coutinho é pontilhada de incomparável desejo de servir, cuja base foi edificada na infância quando seus pais, donos muitas terras, se constituíram benfeitores na região de Esperança, Pocinhos e Serraria. Seguir o caminho do sacerdócio foi uma decisão tomada na adolescência, logo acolhida por todos.
Ordenado padre em 1920, não perseguiu cargos na Igreja, mas se aproximou de quem poderia ajudar a minimizar a situação de penúria das famílias residentes nas periferias da Capital, onde a pobreza mendigava.
Cedo, ele procurou forrar-se de virtudes teologais e ensinamentos filosóficos para compreender as paisagens humanas construídas tendo como base fé cristã. Se não tinha sede de conhecer certos conceitos da religião, era um homem culto que abraçou a causa dos pobres baseado na sabedoria da Palavra de Jesus, por isso edificou fecundo trabalho em favor dos excluídos.
Parece que ouvia a assertiva do Mestre: “Se queres me seguir, vende tudo e doa aos pobres”. Assim procedeu, pois, quando recebeu herança de seu padrinho e de familiares, sendo uma fazenda em Pocinhos e um engenho em Serraria. Vendeu-os para repartir com os necessitados, pois investiu tudo no Instituto São José e na modesta casa de acolhida, para amenizar a dor de agonizantes. Igualmente, aconteceu com a fazenda no bairro de Mandacaru, doada pela senhora Iaiá Paiva, permitindo que famílias ocupassem e construíssem suas casas, onde muitas residem até hoje.
Em sua trajetória de vida religiosa, nunca desviou o olhar da pobreza, não praticou gesto desgastante para a Igreja. No entanto, elevou gestos bondosos para dignificar a vida dos desprezados pelas autoridades governamentais. Ele foi um interlocutor para retirar do encurvamento social, de prostração e da inabilidade muitos que estavam em situação de exclusão.
Quando aportei nesta cidade em 1971, conheci este padre que percorria os salões de festa e postava-se às portas dos cinemas para pedir esmolas, sempre com retumbante “meu prezado, não esqueça de ajudar aos meus pobres”, enquanto tocava ao ombro de alguém com a vareta de sucupira.
Conheço pessoas que à época, jovens, empurraram sua cadeira de rodas. Convivi com pessoas que estiveram sob seu teto, receberam ensinamentos que nunca deveriam esquecer. O jornalista Nathanael Alves, o deputado Antônio Medeiros, o procurador do Estado Manoel Raposo, o desembargador Simeão Cananéa e tantos outros que acho razoável não cita mais para não cometer injustiça, o que seria imperdoável, comeram os pirões do padre.
O padre apresentava cansaço, sem condição de manter a residência, foi quando jovens médicos se uniram para transformar a antiga Casa do Padre em local habitável, relanceando olhar ao crepúsculo acolhedor de antes. A sociedade assumiu o projeto caritativo de elevado sentido, e depois, passou a ser comandado durante anos por uma comissão integrada por membros do Encontro de Casais com Cristo, da Basílica-Catedral Nossa Senhora das Neves.
Padre José Coutinho nunca falou com jactância de seu espólio caritativo, mas revelava-se no pequeníssimo conforto que trouxe para muitos desvalidos. A todos boamente se dedicava sem em nada pedir em troca.
Sabia ser tarefa árdua manter o empreendimento à custa de doações porque era pouca a subvenção do Estado. Nunca esmoreceu diante do infortuno de não ter o que comer nem remédio para curar feridas dos desvalidos. Mas Deus infundiu nele esperança e perseverança.
O Instituto São José, fundado em 1935, e, com muito esforço, em 1965, a Casa do Padre foi transformada em hospital, legado pelo o qual sempre dedicou sua vida porque entendia como cumulação de Deus, apenas sendo sócio benemérito e fiel depositário, sem querer glória. Ficou famosa a frase que pronunciava ao abordar as pessoas: “Não esqueça a esmola dos meus pobres”.
Padre José da Silva Coutinho nasceu na cidade de Esperança no dia 18 de novembro de 1897, viveu sua infância em Serraria, e faleceu no dia 5 de novembro de 1973, em João Pessoa, aos 75 anos de idade.
