A necessidade de prever cada detalhe da vida pode transformar a busca por segurança em um ciclo permanente de ansiedade e desgaste emocional
O excesso de controle sobre a vida, o trabalho, o dinheiro e os relacionamentos vem sendo apontado por especialistas como um comportamento associado ao aumento da ansiedade e ao desgaste da saúde mental. A necessidade permanente de prever problemas, evitar erros e eliminar incertezas mantém o cérebro em estado de alerta e pode comprometer a inteligência emocional, a criatividade e a capacidade de tomar decisões, justamente em um momento em que a saúde mental permanece entre as principais preocupações dos brasileiros.
A treinadora mental, psicanalista e pesquisadora em Neurociências e reprogramação mental Elainne Ourives explica que o excesso de controle costuma funcionar como um mecanismo de defesa diante da insegurança. Segundo a especialista, quanto maior a tentativa de eliminar as incertezas, maior tende a ser o estado de vigilância do cérebro, reduzindo a flexibilidade emocional e dificultando decisões conscientes.
“O excesso de controle nasce da crença de que só estaremos seguros se conseguirmos prever tudo. Mas a vida não funciona dessa forma. Quanto mais a pessoa tenta controlar o futuro, mais alimenta a ansiedade no presente. O cérebro permanece em estado de vigilância contínua, como se um perigo estivesse prestes a acontecer”, afirma.
O debate ganha força em meio ao avanço das discussões sobre saúde mental. A quarta edição do Panorama da Saúde Mental, desenvolvida pelo Instituto Cactus em parceria com a AtlasIntel, apontou queda no Índice Contínuo de Avaliação da Saúde Mental dos brasileiros em 2025 e mostrou piora especialmente na dimensão relacionada ao foco, indicando maior dificuldade de concentração e bem-estar emocional.
Para a pesquisadora, controlar situações faz parte da rotina. O problema surge quando a necessidade de controle se transforma em ansiedade antecipatória, impede a adaptação às mudanças e passa a interferir na saúde mental, nos relacionamentos e no desempenho profissional.
Autora de 11 livros sobre desenvolvimento humano e reprogramação mental, a especialista observa que esse padrão tem se tornado mais frequente entre profissionais, empresários e líderes que associam produtividade à necessidade de prever todos os riscos.
“Quem tenta controlar tudo vive olhando para ameaças que ainda nem existem. O cérebro permanece em alerta contínuo e perde espaço para criatividade, flexibilidade e tomada de decisão. Quanto maior a necessidade de controlar o que está fora do nosso alcance, maior tende a ser a ansiedade”, afirma.
Quando o controle deixa de proteger
Segundo a treinadora mental, o comportamento costuma aparecer de forma silenciosa. Revisar decisões repetidamente, sentir necessidade constante de aprovação, evitar delegar tarefas, antecipar problemas que ainda não aconteceram, buscar respostas para todas as possibilidades e experimentar culpa quando algo foge do planejamento são alguns dos sinais mais comuns.
Ela explica que esse funcionamento mental cria um ciclo difícil de romper. Quanto maior a tentativa de eliminar as incertezas, maior tende a ser a ansiedade. Como consequência, o cérebro permanece concentrado em possíveis ameaças e reduz sua capacidade de adaptação ao inesperado.
“O controle deixa de proteger quando passa a consumir energia mental o tempo todo. A pessoa acredita que está evitando problemas, mas, na prática, está alimentando um estado permanente de vigilância.”
Os sinais de que a ansiedade assumiu o controle
Na avaliação da psicanalista, um dos efeitos mais frequentes desse comportamento é a dificuldade para agir. O medo de errar, escolher o caminho inadequado ou perder oportunidades faz com que muitas pessoas permaneçam analisando possibilidades sem conseguir tomar decisões.
“O perfeccionismo e o excesso de controle caminham juntos. A pessoa acredita que precisa encontrar a decisão perfeita antes de agir. Na prática, isso gera procrastinação, desgaste emocional e sensação constante de insuficiência”, diz.
A pesquisadora ressalta que o problema também afeta líderes, empresários e profissionais que ocupam cargos de responsabilidade, justamente porque costumam associar controle absoluto à competência.
“Controlar processos é diferente de tentar controlar tudo. Liderar exige planejamento, mas também capacidade de lidar com o inesperado. Quando o medo assume o comando, a tomada de decisão perde qualidade.”
Controlar menos também é inteligência emocional
De acordo com a especialista, algumas práticas ajudam a interromper esse padrão mental e fortalecer a inteligência emocional:
- desenvolver consciência sobre pensamentos de antecipação e catastrofização;
- praticar exercícios de respiração para reduzir o estado de alerta do cérebro;
- identificar crenças ligadas à necessidade permanente de controle;
- fortalecer a confiança na própria capacidade de adaptação diante dos imprevistos;
- substituir a busca por controle absoluto por planejamento aliado à flexibilidade.
“Saúde mental não significa viver sem imprevistos. Significa desenvolver inteligência emocional para lidar com aquilo que não pode ser controlado. Quando a pessoa reduz a ansiedade antecipatória, consegue tomar decisões com mais clareza, equilíbrio e flexibilidade”, conclui.