Há cronista que esconde suas preferências, mas assinalando referências exibe seu gosto pela arte e até expõe suas manias, ao contrário do poeta que apontando os caminhos da alma usa metáforas para falar de seus amores e paixões.
O cronista Martinho Moreira Franco se revela apaixonado pelo cinema, curte abundantemente Roberto Carlos e exibe-se fervoroso torcedor do Flamengo. Em mais de cinco décadas de labuta na imprensa, nunca escorreu na elaboração de um texto. Sejam textos publicitários, reportagens ou crônica, aliás, sempre primorosos, carregam melodia e trazem-nos o prazer da leitura.
Falo isso não porque seja meu amigo, que acompanho seus escritos desde quando pisava no solo sagrado da redação de O Norte, por volta de 1978, alçando voo na minha profissão de jornalista. Seus escritos alumiam as veredas para quem deseja aprender a elaborar texto conciso. Ele integra o seleto grupo de redatores e repórteres referência na Paraíba.
Numa crônica exaltando o poeta pernambucano Marcus Accioly, falecido em outubro de 2017 aos 64 anos, Martinho entregou o jogo, ou seja, mostrou sua preferência pela poesia, uma paixão cultivada desde a adolescência. Afirmou apreciar Augusto dos Anjos, um dos seus poetas prediletos, mas caminha pela poesia de Alphonsus de Guimaraens, Castro Alves, Fagundes Varela, Cláudio Manuel da Costa, Olavo Bilac e esbarra em Vinícius de Morais, o poeta da paixão. Afora outras preferências por poetas igualmente geniais.
Ele escreveu que abomina poema sem sonoridade, sem cadência, sem musicalidade. “Poema para mim tem que possuir esses três elementos, além de transmitir emoção, muita emoção”. Por isso seus textos são ritmados.
A crônica publicada no Jornal A União (13-12-2018) e outras de sua lavra, carregam poesia e em muitos casos proporcionam emoção numa elevada medida. Sua paixão pela poesia não se restringe ao soneto, mesmo porque os poetas citados praticaram a poesia não apenas como sonetista. “Não precisa ser soneto. Desde que haja sonoridade, cadência, musicalidade e emoção, um poema sempre cai bem no peito deste desafinado que vos fala”, escreveu.
Bem diferente do poeta que se esconde nas palavras, como “um fingidor que finge tão completamente que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente” no dizer de Fernando Pessoa, o cronista revela-se abertamente, abre sua alma para falar de sua vida, aborda particularidades que somente ele, cronista, é capaz de sentir e expressar. Escrevendo, explica-nos fatos do cotidiano quando não é entendível.
No caso deste meu amigo, que escreve de forma caprichada, o tema abordado sempre é descrito detalhadamente, num texto arrochado. Por tudo isso é que Gonzaga Rodrigues, outro cronista revelador de sua alma sem o fingimento dos poetas, disse que Martinho é atualmente o grande cronista da Paraíba. Registrando ou comentando fatos, eleva o padrão da crônica, ajudando a entender a história do cotidiano da cidade que se transformou, do bonde ao trânsito tumultuado de agora.