quarta-feira, 22 de julho de 2026
As janelas de Neide
02/11/2025

Uma fotografia do Antônio David de tempos atrás, mostrando Gonzaga Rodrigues na janela de sua antiga casa em Alagoa Nova, olhando o mundo da sua infância, traz uma profunda saudade. O olhar de Gonzaga se perde na imensidão dos canaviais sobre as serras, esperando o entardecer, que parece nos cobrir com sua sombra.
As janelas de Tapuio continuam abertas na minha lembrança, de onde víamos a vida passar pela estrada que nos levava a Serraria, Arara e Solânea.
“Sempre tive uma predileção pelas janelas. As janelas me acompanham desde o tempo de criança e adolescente, quando olhava a movimentação da nossa cidade”, recorda a professora Neide.
As janelas são como as cachoeiras, recordam a vida pelo som que deixam penetrar em quem está perto. Mesmo que a cachoeira seja pequena, a música da queda da água faz bem a nossa alma. Assim como o vento que entra pelas janelas traz emoção, as cachoeiras são janelas que convidam à contemplação ao mundo ao seu redor.
Assim como os poetas, com ousada sensibilidade, os pintores usam as janelas como metáforas para olhar o mundo, para mostrar a esperança ao largo.
A janela convida para a contemplação nos mais variados aspectos humanos.
Da janela é possível se observar muitas coisas.
Para o poeta Mário Quintana, quem escreve um poema, abre uma janela. Sendo assim, quem pinta uma janela, abre espaço para entrar a brisa que aquece a alma e perfuma o ambiente.
Entre quem escreve um poema e quem pinta uma janela, existe um contato sensível, afetuoso entre dois espíritos no uso de instrumentos diferentes para se comunicar e sonhar.
Na janela, sentindo o vento, é possível a integração com a vida, em noite com estrelas e luar.
Em um poema revelador, a poetisa Adélia Prado assim fala da “janela, palavra linda”. No poema ela jura que a “Janela é o bater das asas da borboleta amarela. Abre pra fora as duas folhas de madeira à-toa pintada, janela jeca, de azul”.
Drummond, que reconhecia existir um estilo para se “chegar à janela, de espiar a rua”, da janela olhar o mundo. “O mundo é grande e cabe nesta janela sobre o mar”, canta o poeta de Itabira.
As janelas de Neide Medeiros ajudam a olhar o mundo lá fora, os rios de nossa vida, porque há tantos sonhos que podem ser vistos se abrirmos a janela do nosso coração.
Os sonhos da infância que alçam voos pelas janelas, são como os pássaros ao serem libertos das gaiolas.

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José Nunes
José Nunes

José Nunes é jornalista e membro da Academia Paraibana de Letras (APL).