Pedidos em crescimento escancaram a urgência de pequenas e médias empresas revisarem gestão, caixa e estrutura financeira antes que a crise comprometa a sobrevivência do negócio
O aumento de 18,9% nos pedidos de falência no primeiro semestre de 2025, segundo levantamento da Serasa Experian, reacendeu o alerta sobre a saúde financeira das empresas brasileiras. Embora juros elevados, crédito restrito e desaceleração econômica sigam pressionando o caixa corporativo, especialistas apontam que parte relevante desse colapso nasce dentro da própria operação, com decisões tardias, falhas de gestão e ausência de planejamento preventivo.
Para Marcos Pelozato, advogado, contador e empresário com 14 anos de atuação em reestruturação empresarial e recuperação judicial, o avanço dos pedidos de falência expõe um problema estrutural que vai além do ambiente econômico. À frente de um escritório especializado em reorganização societária, gestão de passivos e recuperação de negócios, ele afirma que muitas empresas chegam ao limite sem sequer compreender a real dimensão da crise que enfrentam. “Na maior parte dos casos, a falência não começa quando falta dinheiro. Ela começa muito antes, quando o empresário perde controle sobre números, ignora sinais financeiros e posterga decisões que precisam ser tomadas com antecedência”, afirma.
O diagnóstico ganha força diante do perfil dos negócios mais vulneráveis. Pequenas e médias empresas costumam operar com menor acesso a crédito, estrutura financeira menos sofisticada e forte dependência da própria geração de caixa. Nesse contexto, a diferença entre atravessar uma fase de pressão e entrar em colapso costuma estar menos na capacidade de captar recursos e mais na forma como a empresa administra liquidez, antecipa riscos e organiza sua operação financeira. Quando essa gestão falha, o impacto tende a ser imediato.
Segundo Pelozato, um dos erros mais recorrentes está na falta de leitura estratégica da operação. “É comum encontrar empresas que faturam, vendem, mantêm equipe ativa, mas operam sem clareza sobre margem, endividamento real, custo tributário ou capacidade de pagamento. O empresário confunde movimento com saúde financeira”, diz.
Outro ponto crítico está no atraso para buscar orientação especializada. Dados do Sebrae mostram que apenas 6% dos pequenos negócios buscaram consultoria ou apoio técnico especializado, um indicativo da baixa cultura de prevenção entre os empreendedores brasileiros.
Para o especialista, a resistência à atuação preventiva ainda custa caro. “Existe uma cultura de tentar resolver tudo sozinho, como se buscar ajuda fosse sinal de fraqueza. Na prática, essa demora encarece a crise e reduz drasticamente as alternativas de recuperação.”
A pressão tributária também aparece entre os fatores que aceleram o desgaste financeiro, especialmente entre empresas médias que cresceram sem revisar estrutura societária, regime fiscal ou passivos acumulados. Com a reforma tributária avançando e exigindo adaptação operacional e financeira das empresas, a falta de planejamento tende a ampliar riscos para negócios já fragilizados.
Pelozato afirma que muitas insolvências poderiam ser evitadas com medidas relativamente simples, desde que adotadas no momento correto.
Entre os principais sinais de alerta, ele destaca:
- Dificuldade recorrente para cumprir obrigações de curto prazo
- Dependência constante de crédito para sustentar a operação
- Ausência de indicadores financeiros confiáveis
- Crescimento de passivos tributários sem estratégia de regularização
- Decisões tomadas apenas sob pressão de urgência
“Quando a empresa começa a depender de improviso para sobreviver, a crise já está instalada. O problema é que muitos empresários ainda enxergam a reestruturação como último recurso, quando ela deveria ser um instrumento de preservação do negócio”, afirma.
Dados do Mapa de Empresas, do governo federal, mostram que o Brasil mantém fluxo elevado de encerramentos empresariais, reforçando a fragilidade operacional de parte relevante dos negócios.
Na avaliação do especialista, o debate sobre falência precisa sair da lógica puramente jurídica e entrar no campo da gestão. “Não estamos falando apenas de empresas quebrando. Estamos falando de empregos, arrecadação, cadeias produtivas e negócios que poderiam ser preservados com gestão técnica e decisão no tempo certo.”