João Pessoa, segunda-feira, 21 de setembro de 2026
Abel Ferreira ganhou tudo pelo Palmeiras. Por que ainda perde a cabeça?
20/09/2026

Abel Ferreira já garantiu seu lugar na história do Palmeiras. Desde que chegou ao clube, em 2020, tornou-se o técnico mais vitorioso da história alviverde, com 11 títulos. Ganhou duas Libertadores, dois Brasileiros, uma Copa do Brasil, quatro Paulistas, uma Recopa Sul-Americana e uma Supercopa do Brasil. Poucos treinadores construíram em tão pouco tempo uma trajetória semelhante no futebol brasileiro.

Há outro feito igualmente impressionante. Abel atravessou seis temporadas no comando do mesmo clube num país onde técnicos são demitidos depois de três ou quatro derrotas. Sobreviveu a eliminações, crises, reformulações do elenco e períodos sem títulos. Continua lá.

Mas há um outro número em sua passagem pelo Palmeiras que também impressiona.

Em 415 jogos, Abel recebeu 104 cartões: 89 amarelos e 15 vermelhos. No último jogo do Palmeiras pela Libertadores, contra a LDU, nas quartas de final, foi expulso outra vez.

É praticamente um cartão a cada quatro partidas para alguém que não dá carrinho, não disputa uma bola pelo alto, não mata contra-ataque e não precisa derrubar adversário diante do gol.

É difícil imaginar até mesmo um zagueiro com tamanha coleção.

Abel reclama, gesticula, protesta e frequentemente parte para o confronto com a arbitragem. Muitas vezes transmite a impressão de considerar que existe uma predisposição dos árbitros contra ele ou contra o Palmeiras.

É aí que aparece uma contradição difícil de explicar. Como pode um treinador tão perseguido pela arbitragem ter conquistado 11 títulos em pouco mais de cinco anos? Se existe perseguição, ela tem sido extraordinariamente incompetente.

Não cabe fazer diagnóstico psicológico à distância nem falar em mania de perseguição como condição clínica. O que os números permitem afirmar é que existe um padrão de comportamento. Abel perde o controle com uma frequência incomum para um treinador de sua categoria.

Guardiola reclama. Mourinho reclama. Simeone reclama. Técnicos são advertidos e expulsos no mundo inteiro. Mas 104 cartões em 415 partidas estão muito além de uma discussão ocasional com o árbitro.

E Abel não precisa disso e existe ainda uma curiosidade em sua carreira. Depois de tanto sucesso no Brasil, Abel nunca foi sondado por um grande clube europeu. Não há qualquer elemento que permita dizer que seu comportamento seja a causa. Seria especulação.

Talvez essa seja a grande contradição de Abel Ferreira. Ele já ganhou praticamente tudo que poderia ganhar pelo Palmeiras, construiu autoridade suficiente para não precisar provar mais nada a ninguém e, mesmo assim, continua brigando com árbitros como se cada decisão fosse uma questão pessoal.

O coração quente ajudou a construir o Abel vencedor.

Depois de 11 títulos e 104 cartões, talvez esteja na hora de esfriar a cabeça.

A coluna na edição impressa do JBr

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