João Pessoa, domingo, 20 de setembro de 2026
Bets e loterias podem viciar, mas há uma diferença fundamental
20/09/2026

As loterias da Caixa, os cassinos tradicionais e as bets têm algo em comum: todos envolvem apostas e podem levar à perda de controle. Mas isso não significa que ofereçam o mesmo risco ou funcionem da mesma maneira.

Na semana passada, a coluna Futebol Etc ouviu o psiquiatra Giovanni De Toni, mestre em Ciências da Saúde, professor universitário, pesquisador em psiquiatria digital e preceptor de residência do Hospital Universitário de Brasília. Ele alertou para o crescimento da dependência provocada pelas apostas e para o risco de o problema assumir dimensões ainda maiores no país.

Com a discussão sobre uma eventual proibição ou maior restrição às bets, surgiu uma pergunta: se apostar pode causar dependência, qual é a diferença entre uma bet e jogar na Mega-Sena, por exemplo?

Voltamos a conversar com Giovanni De Toni. Segundo o psiquiatra, a principal diferença está na forma como cada modalidade expõe o apostador ao estímulo e permite a repetição da aposta.

Nas loterias tradicionais, existe um intervalo entre apostar e conhecer o resultado. Mesmo com a possibilidade de fazer jogos pela internet, os sorteios acontecem em horários determinados. Na Mega-Sena, por exemplo, os concursos regulares ocorrem em dias e horários previamente definidos pela Caixa. 

Nas bets e, principalmente, nos jogos de resposta rápida oferecidos por plataformas online, essa distância pode praticamente desaparecer. O celular permite acesso contínuo e, em determinadas modalidades, o apostador pode fazer uma aposta, conhecer o resultado e apostar novamente em poucos segundos.

É justamente essa velocidade que preocupa.

De Toni explica que comportamentos recompensados de maneira frequente e rápida tendem a ser repetidos com maior intensidade. Sons, imagens, notificações e a possibilidade de uma nova aposta imediatamente após a anterior ajudam a manter o usuário dentro desse ciclo.

O princípio também ajuda a entender a diferença em relação a um cassino físico. Embora caça-níqueis, roleta e outros jogos de cassino também possam provocar dependência e permitir apostas sucessivas, existe pelo menos uma barreira física: é preciso chegar ao cassino e permanecer naquele ambiente. No celular, o ambiente de aposta acompanha a pessoa.

Isso não torna as loterias tradicionais livres de risco. A Organização Mundial da Saúde classifica o transtorno do jogo entre os transtornos devidos a comportamentos aditivos e aponta como características a perda de controle, a prioridade crescente dada ao jogo e a continuidade das apostas apesar das consequências negativas. 

A diferença, portanto, não está simplesmente entre uma aposta que vicia e outra que não vicia. Está também na intensidade da exposição e na velocidade com que o ciclo pode ser repetido.

Nas antigas loterias, havia uma espera entre o impulso, a aposta e o resultado. Nas plataformas digitais, essa espera pode ser reduzida a segundos.

E, quando se fala em dependência, esses segundos podem fazer muita diferença.

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