Imagine o Brasil sem programas sociais. Talvez fosse preciso criar uma nova faixa no trânsito: “exclusiva para desabrigados”. Faltaria calçada para tanta gente expulsa do emprego, do aluguel e da própria sorte.
Os recentes ataques de pessoas em situação de rua a moradores em situação de residência, em Brasília, revelam uma tragédia que já perdeu até o vocabulário: para não chamar ninguém de pobre, inventamos nomes elegantes para a miséria.
Mas trocar o nome não muda o endereço — ou a falta dele. Rua não pode ser política habitacional, crack não pode ser anestesia social e marquise não é quarto.
São necessários assistência, saúde mental, tratamento contra dependência, trabalho, moradia e acolhimento digno. Do contrário, continuaremos administrando a pobreza com boletim de ocorrência e fingindo surpresa quando o abandono resolver bater à porta.
