Chegar à velhice com reconhecimento familiar e da sociedade a qual se está inserido, era privilégio de resumido número. O que seria uma satisfação mostrar como é prazeroso viver na longevidade e quanto é bom esticar essa satisfação esticada na idade avançada, alguns têm isso como uma mortificação.
Muitos idosos são relegados pelos os filhos e netos quando começam a falar grosso, esquecendo-se do ensinamento cristã de que é necessário amparar a velhice, porque se tornam fardos pesados e incômodos. Nem todos. Alguns se tornam exemplos, indo buscar no limite do esforço o prazer de ser útil.
Na cidade de Areial tem um exemplo que é renovador. Inspira-nos. Ressalto como diferente dos muitos que conheço. Anos dedicados à educação de rudes crianças e pés descalços, a saudade das palavras fez a professora Maria Barbosa de Lima retornar ao passado nas lembranças da comunidade onde sempre viveu.
Aposentada, com os cabelos brancos identificando a idade avançada, foi buscar nas recordações da infância nutrição para os dias atuais. Para guardar a memória da comunidade onde nasceu, decidiu escrever suas histórias. Histórias presenciadas ou contadas pelos seus pais e avós. Algumas surgidas no imaginário popular. Ao final, sem muita ostentação, presenteou a cidade com um livro.
Escreveu cordel, literatura de alcance popular. Chama-nos a atenção o livro “A Fantástica Lagoa Salgada”, no qual narra lendas contadas pelos habitantes do lugar. Esta lagoa fica localizada entre os municípios Areial, Pocinhos e Montadas. Suas águas possuem a mesma salinização do mar, imprestável ao consumo. Num curto período do ano acumula água. Na região foram encontrados restos de fósseis, daí aumentando a curiosidade sobre seu passado e as lendas afloraram.
A senhora Maria Barbosa nos transmite pureza no olhar e carinho no abraço. Cativa ao primeiro encontro. Assim se deu comigo. Conheci-a num evento de agricultores. Foi fácil avizinhar-se dela. Seus livros expostos à venda foi o atrativo.
- Comecei a escrever tarde…
- Nunca é tarde. Cora Coralina publicou seus livros com idade avançada…
Nem deixou completar a apresentação da poetisa goiana. Respondeu-me que Cora tinha bastante cultura, sabia escrever. - A senhora também…
Percebi uma pessoa talentosa. Cora Coralina, Maria Barbosa, Manuel de Barros, Balduino Lelis conduziram a vida alimentada nas brenhas esturricadas e terras inóspitas do Sertão nordestino ou do Centro-Oeste, de onde retiraram o alimento para suas criações, com um modo diferente de olhar a vida. Nem damos conta do trabalho intelectual que realizam.
A mestra-poetisa de Areial fez uma boa ação, recolhendo as lendas e tradições que encantam. Imagino as noites de Lua, todos ao terreiro das casas ouvindo as narrativas. Lembro-me de Tapuio quando ouvíamos dona Mocinha e Seu Gabriel contando as estórias de castelos que nem sabíamos onde ficavam ou recordavam as histórias de nosso sítio.